São Paulo,

CORPO ESTRANHO NA CAVIDADE ORAL E DISTOCIA FETAL

Autor : Dr Marco Aurélio Avendano Motta1
Orientador : Dr Alceu Gaspar Raiser2

1-Médico veterinário, Especialista em Clinica Cirúrgica de Pequenos Animais,Universidade Federal de Santa Maria,Centro Clínico e Cirúrgico Dr Marco Aurélio A  Motta, Barão de Santa Tecla, 809,CEP: 96010-140, Pelotas-RS,.E-mail:maamotta@terra.com.br

2- Médico veterinário, Doutor, Professor titular, Laboratório de Cirurgia Experimental (www.ufsm.br/lace), Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria-RS, E-mail: raisermv@smail.ufsm.br.

INTRODUÇÃO

Na prática diária da clinica cirúrgica, podem aparecer casos interessantes, devendo o clínico-cirúrgico estar atento a situações não convencionais, que possam acontecer no decorrer da sua atuação profissional. Esse relato tem por objetivo apresentar um caso em que a queixa do proprietário poderia levar a uma interpretação incompleta do diagnóstico em uma situação em que o risco de vida do paciente era a prioridade. O exame clínico cuidadoso pelo médico veterinário é fundamental para detectar intercorrências e complicações que não são a causa da procura pela assistência.

RELATO DO CASO

 Em decorrência do atendimento de um chamado domiciliar, deu entrada na clínica uma cadela Pastor alemão, de pelagem branca, com 5 anos e 5 meses de idade, pesando 35kg, cujo proprietário suspeitou que o animal estivesse com raiva , pois salivava abundantemente e possuía comportamento estranho, seguido de intenso abatimento e fugia da luz.

Ao ser inspecionada a cavidade bucal verificou-se a presença de um segmento de osso bovino preso ao palato, entre os 4o pré-molares e 1o molares (Figuras 1 e 2). A retirada foi efetuada com facilidade, pois não houve reação do paciente face ao seu grau de prostração.

Na seqüência, procedeu-se exame clínico completo, ao qual detectou-se abdômen aceutadamente distendido, som timpânico à percussão, mas discreta dor abdominal. A temperatura retal era de 41,6oC, as mucosas estavam congestas, o tempo de reperfusão capilar >2s, e o grau de desidratação estimado em 8%, além de ser constatada a presença de corrimento vaginal mucosangüinolento, discreto, mas fétido (Figura 3).

Após foi feita a hidratação do paciente com solução Ringer lactato de sódio e antibióticoterapia com ceftriaxona sódica diluída em solução de Cloreto de sódio a 0,9%, na dose total de 1g, IV, por infusão continua durante 30min. A seguir, face à gravidade da situação o animal foi encaminhado para cirurgia. Como medicação pré-anestésica foram empregadas morfina (1mg/kg, SC) e sulfato de atropina (0,044mg/kg, SC); para indução foi utilizado propofol (3mg/kg, IV) e a manutenção anestésica foi efetuada com isoflurano vaporizado em oxigênio a 100 % em circuito semi-fechado.

 Alcançado o plano anestésico, foi realizada laparotomia explaratória sendo constatada a presença de corno uterino desvitalizado (Figura 4), o qual foi removido cuidadosamente para evitar ruptura (Figura 5), seguindo-se, então, ovário-histerectomia (Figura 6). Na seqüência foi procedida lavagem exaustiva da cavidade abdominal (Figura 7) com solução de Ringer lactato aquecida a 35oC para auxiliar no controle da irritação visceral e da peritonite.

Os cornos uterinos continham fetos enfisematosos em adiantado processo de putrefação (Figura 8).

No pós operatório foi administrada cefalotina (25mg/kg, de 12/12h, IV) e a ferida cirúrgica protegida por curativo local com nitrofurazona. O cão foi liberado após 72h em franca recuperação (Figura 9).

COMENTÁRIOS

Na avaliação clínica, o exame semiológico completo é fundamental para que o médico veterinário estabeleça um diagnostico correto e não seja mal direcionado pelo histórico clínico. Não raro, proprietários pretensamente entendidos podem induzir o profissional menos experiente a um diagnóstico errôneo ou incompleto.

Outra condição fundamental é a adequada estabilização do paciente antes de ser submetido a procedimentos anestésico-cirúrgicos. No caso em consideração, além de o paciente ter dificuldade para ingestão oral, ainda apresentava uma patologia que cursava com espoliação hidroeletrolítica, caracterizando desidratação e presença de infecção.

A remoção da causa (retirada do corpo estranho e ovário-histerectomia) deve estar associada à adequada preparação (hidratação) e controle das complicações secundárias (tratar a peritonite). Na presente condição, a peritonite foi de intensidade moderada e respondeu bem ao tratamento local com irrigação abundante com solução hidroeletrolítica balanceada e uso parenteral de antibiótico. Não há vantagem alguma no uso de antibiótico na cavidade peritoneal, a administração deve ser exclusivamente parenteral.



Figura 1 - Localização do corpo estranho (osso) entre os dentes molares e pré-molares em uma cadela Pastor Alemão de cor branca.


Figura 2 - Detalhe do fragmento de osso bovino após sua retirada do palato em uma cadela Pastor alemão de cor branca.

Figura 3 – Apresentação de corrimento vaginal discreto evidenciada como intercorrência clínica na cadela Pastor Alemão de cor branca.

Figura 4 - Incisão paramediana e drenagem de secreção esverdeada fétida, contida na cavidade abdominal e (à direita) visualização de um corno uterino de cor esverdeada, em cadela Pastor Alemão de cor branca.

Figura 5- Exposição lenta e gradual do corno uterino desvitalizado, em uma cadela Pastor alemão de cor branca, a fim de evitar descompensação cardiocirculatória e ruptura do órgão.

Figura 6- Após ressecção do corno uterino necrosado (à esquerda), observar a integridade do cornocontra-lateral que também foi extirpado de uma cadela Pastor alemão de cor branca

Figura 7 - Detalhe da cavidade abdoinal, após exaustiva lavagem com solução Ringer com lactato de sódio em que se observa peritônio congesto (esquerda). No reservatório do aspirador observa-se o aspecto da solução de lavagem da cavidade peritoneal, ao início (centro) e ao término do procedimento (direita).

Figura 8 – Apresentação dos fetos enfisematosos, removidos do corno uterino desvitalizado de cadela Pastor alemão de cor branca.


Figura 9 - Cadela Pastor Alemão de cor branca que fora submetida à ovaruo-histerectomia no momento da alta