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Alterações do Ciclo Estral Em Cadelas
1.
Introdução
2.1 Início da puberdade
2.2 Intervalo entre os ciclos
2.3 Fases do ciclo
2.4 Proestro
2.5 Estro
2.6 Diestro
2.7 Anestro
3.
Infertilidade
3.1 Cistos ovarianos
3.2 Neoplasias ovarianas
3.3 Intersexo
3.4 Hiperadrenocorticotismo
3.5 Hipotireoidismo
4.
Infertilidade em cadelas com ciclos anormais
4.1 Anestro persistente
4.1b Anestro secundário
4.2 Proestro/Estro persistente
4.3 Ninfomania
4.4 Intervalos interestros diminuídos
4.5 Split heats
4.6 Intervalos interestros aumentados
4.7 Cio silencioso
4.8 Estro diminuído
5.
Casos na literatura
5.1 Proestro prolongado em cadelas com X monossomia
cromossômica (77,X0)
5.2 Indução do estro em cadelas com anestro normal e persistente usando gonadotrofina
menopausal humana (hMG)
6.
Levantamento em clínicas veterinárias
6.1 Carta de apresentação
6.2 Questionário
7. Conclusão
8. Agradecimentos
9.
Referências bibliográficas
A
escolha do grupo em realizar um trabalho que abrangesse as alterações que podem
ocorrer no ciclo estral de cadelas, surgiu em primeiro lugar porque consideramos
essas patologias de grande significância.
Em
várias situações, incluindo o nosso dia a dia, escutávamos as pessoas comentando
sobre problema no ciclo de seus animais de estimação: cadelas que não estavam
mais “entrando no cio”, até o oposto, cadelas que estavam “entrando em cio”
muito freqüentemente ou mesmo por períodos prolongados.
Sabíamos que era um assunto importante, já que essas alterações certamente
interfeririam na fertilidade dos animais, obviamente acarretando muitos prejuízos
aos criadores. E ainda que não houvesse interesse dos proprietários em cruzar
seus cães, dependendo da alteração presente, os incômodos trazidos são de grande
importância; exemplificando, uma cadela com secreção vaginal por um período
prolongado dentro de casa, logicamente atrapalha o proprietário. Além do que,
considerando que algumas alterações decorrem de patologias primárias, a saúde
do animal também pode estar afetada.
Nesse contexto, vimos nesse trabalho uma oportunidade para conhecermos
com maior profundidade o ciclo estral nas cadelas, suas alterações, etiologia,
diagnóstico, e possível tratamento destas.
2. O CICLO ESTRAL
NORMAL EM CADELAS
(Feldman,E.C.,
1987))
2.1 Início da puberdade
Normalmente as cadelas exibem seu primeiro
ciclo alguns meses depois de terem atingido altura e peso adulto. Em raças pequenas
corresponde geralmente aos 6-10 meses de idade, enquanto raças grandes podem
não ciclar até chegarem aos 18- 24 meses. É relatada uma grande variação racial
e até mesmo individual quanto a esse aspecto.
Recomenda-se que o primeiro cruzamento
seja realizado durante o segundo ou terceiro estro.
2.2 Intervalos entre
os ciclos
A maioria das cadelas inicia um novo proestro
a cada 7 meses, mas como ocorre alta variação entre raças e provavelmente sofre
influências sociais e ambientais, são considerados intervalos normais àqueles
que duram de 5 a 10 meses.
Tabela 1. Número de estros por ano em algumas
raças
Beagle
1,5
Boston Terrier
1,5
Pastor Alemão
2,4
Poodle Toy
1,5
Tabela 2. Intervalo interestro em algumas
raças (meses)
Basset Hound
5,8
Boston Terrier
8,1
Boxer
8,0
2.3 Fases do ciclo estral
Proestro : É
o período em que a atividade folicular é mais alta , precedendo o estro
Estro: Período
em que a fêmea aceita o macho para montar e cruzar
Diestro: Associado
com a atividade do corpo lúteo, e portanto dominado pela progesterona.
Anestro: É o tempo compreendido entre o fim da fase luteal (diestro) e o início de outra fase folicular (proestro), clinicamente é um período de quietude reprodutiva.
2.4
PROESTRO
Duração:
Aceita-se que o início seja correspondente ao aparecimento de sangramento vaginal,
ou ainda outros sinais como mudança de comportamento da fêmea, atração de machos
e intumescimento vulvar, e termina quando a cadela permite que o macho monte
e cruze. A média de duração é de 9 dias, podendo ocorrer variações normais de
1-2 até 25 dias.
Sinais clínicos :
A fêmea desencoraja qualquer tentativa de montar do macho, rosnando, fugindo,
mostrando os dentes ou até mesmo mordendo. Observa-se também que a cadela costuma
manter a cauda fortemente pressionada contra o períneo.
Tipicamente o proestro é
associado com descarga vaginal sanguinolenta, mas nem sempre esta ocorre. Esse
sangramento é resultante de diapedese de hemáceas e ruptura de capilares subepiteliais,
devido às rápidas mudanças que ocorrem no endométrio em resposta à secreção
folicular de estrógeno. A facilidade em se detectar esse corrimento depende
do comportamento de limpeza de cada animal e mesmo da raça, sendo percebido
mais facilmente naquelas que apresentem pêlos e caudas longos.
A vulva aumenta de tamanho
com o decorrer do proestro, com edema e inchaço dos lábios vulvares.
Mudanças hormonais: A
cadela em proestro está sob influência do estrógeno sintetizado e secretado
pelos folículos ovarianos em desenvolvimento. O estrógeno é responsável pelas
alterações de comportamento na fêmea, descargas vaginais, atração de machos,
preparação uterina para a prenhez, além de outros eventos proestrais.
No proestro a concentração
de estrógeno, que estava em níveis de 8 a 15 pg/ml no anestro, se eleva para
25 pg/ml no início do período chegando a picos de 60-70 pg/ml no final. O pico
da concentração plasmática de estrógeno ocorre 24- 48 horas precedendo o estro.
Os níveis de progesterona
durante o proestro, exceto nas últimas 12- 48 horas, são basais (<0.5ng/ml).
O fim do proestro é caracterizado por elevação dos níveis de progesterona, enquanto
que os níveis de estrógeno decaem.
A concentração das gonadotrofinas
aumentam no início do proestro, depois os
níveis basais são mantidos até que ocorra o próximo pico, associado com o começo
do estro.
Anatomia vaginal e uterina : A mucosa vaginal no anestro é relativamente
frágil, formada por apenas poucas camadas de células. O aumento dos níveis de
estrógeno no proestro causa uma rápida multiplicação do número de camadas de
células da mucosa vaginal, que se observada à vaginoscopia apresenta-se mais
espessa e pregueada.
A ampliação do número de
camadas celulares acaba afastando as células luminais cada vez mais do suprimento
sangüíneo, resultando na morte dessas células. Essa nova conformação torna o
tecido muito menos sensível e menos frágil, não só pelo aumento das camadas
mas também através do desenvolvimento de precursores de queratina nessas células,
prevenindo assim traumatismos durante a cópula.
Sob os efeitos do estrógeno
e progesterona, a mucosa uterina passa por mudanças semelhantes, o endométrio
se prepara para a implantação através de um marcante aumento da espessura da
parede uterina e da atividade glandular. Essas mudanças podem estar associadas
inicialmente a presença de algum sangramento.
Citologia vaginal:

Figura 1. Esfregaço
para citologia vaginal
Classificação das células
vaginais:
Células parabasais
- São as menores células dentre as células
vaginais, redondas ou ligeiramente ovais, apresentam um núcleo grande e relativamente
pouca quantidade de citoplasma. Vão sendo descamadas próximas a camada germinativa,
perto do suprimento sangüíneo.

Figura
2. Célula parabasal
Células intermediárias - Variam em tamanho
podendo ser classificadas em células intermediárias pequenas e grandes. Apresentam
bordos irregulares e núcleos geralmente menores que aqueles das parabasais.

Figura
3. Célula intermediária
Células superficiais parcialmente queratinizadas - São as células maiores encontradas na citologia vaginal, achatadas e com as bordas anguladas, se coram pobremente. Os núcleos são pequenos e picnóticos.

Figura
4. Célula superficial parcialmente queratinizada
Células superficiais queratinizadas (superficiais
totalmente queratinizadas) - São células grandes,
mortas e irregulares que representam o fim do processo que inicia-se com as
células parabasais. Morreram devido ao espessamento da parede que afastou-as
do suprimento sangüíneo. São grandes
com bordas anguladas e achatadas, também já foram chamadas de células queratinizadas
ou cornificadas.

Células espumosas
- São células parabasais ou intermediárias que contêm vacúolos citoplasmáticos
visíveis.

Células metaéstricas
- São geralmente células intermediárias grandes que contêm em seu citoplasma
um ou mais neutrófilos.
Proestro inicial: Um
esfregaço vaginal de uma cadela em início de proestro apresenta-se com variável
número de células sangüíneas, numerosas células parabasais e intermediárias.
Neutrófilos são comumente encontrados, mas não abundantemente, e bactérias podem
ser visualizadas em pequenas ou grandes quantidades. O fundo do esfregaço é
aparentemente sujo , devido à presença de secreções cervicais e vaginais viscosas
que se coram facilmente.
Proestro médio:
A primeira evidência do efeito da ação contínua do estrógeno na citologia vaginal é o desaparecimento dos neutrófilos, já que
estes agora não mais conseguem atravessar a espessa parede de células. As células
parabasais e intermediárias pequenas vão
sendo substituídas por células intermediárias grandes e por superficiais- intermediárias.
Eritrócitos podem ou não estar presentes, e o fundo pode continuar sujo ou apresentar-se
claro.
Proestro final : O esfregaço já não contém mais neutrófilos, a presença de células sangüíneas é variável, e o fundo é claro. Mais de 80% das células são superficiais com núcleos picnóticos ou anucleadas.