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São Paulo,

 

 

 

 

 

 

Alterações do Ciclo Estral Em Cadelas
Cristiane Musolino
Carolina de Oliveira Ghirelli
Luciana Montel Moreno
Acadêmicas do quarto ano de Medicina Veterinária /2000
Universidade de São Paulo.

ÍNDICE

1. Introdução
2. Ciclo estral normal em cadelas
2.1 Início da puberdade
2.2 Intervalo entre os ciclos
2.3 Fases do ciclo
2.4 Proestro
2.5 Estro
2.6 Diestro
2.7 Anestro

3. Infertilidade
3.1 Cistos ovarianos
3.2 Neoplasias ovarianas
3.3 Intersexo
3.4 Hiperadrenocorticotismo
3.5 Hipotireoidismo

4. Infertilidade em cadelas com ciclos anormais
4.1 Anestro persistente
4.1a Anestro primário
4.1b Anestro secundário
4.2 Proestro/Estro persistente
4.3 Ninfomania
4.4 Intervalos interestros diminuídos
4.5 Split heats
4.6 Intervalos interestros aumentados
4.7 Cio silencioso
4.8 Estro diminuído

5. Casos na literatura
5.1 Proestro prolongado em cadelas com X monossomia        cromossômica (77,X0)
5.2 Indução do estro em cadelas com anestro normal e persistente usando gonadotrofina menopausal humana (hMG)

6. Levantamento em clínicas veterinárias
6.1 Carta de apresentação
6.2 Questionário
7. Conclusão
8. Agradecimentos

9. Referências bibliográficas

1. INTRODUÇÃO

A escolha do grupo em realizar um trabalho que abrangesse as alterações que podem ocorrer no ciclo estral de cadelas, surgiu em primeiro lugar porque consideramos essas patologias de grande significância.

Em várias situações, incluindo o nosso dia a dia, escutávamos as pessoas comentando sobre problema no ciclo de seus animais de estimação: cadelas que não estavam mais “entrando no cio”, até o oposto, cadelas que estavam “entrando em cio” muito freqüentemente ou mesmo por períodos prolongados.

Sabíamos que era um assunto importante, já que essas alterações certamente interfeririam na fertilidade dos animais, obviamente acarretando muitos prejuízos aos criadores. E ainda que não houvesse interesse dos proprietários em cruzar seus cães, dependendo da alteração presente, os incômodos trazidos são de grande importância; exemplificando, uma cadela com secreção vaginal por um período prolongado dentro de casa, logicamente atrapalha o proprietário. Além do que, considerando que algumas alterações decorrem de patologias primárias, a saúde do animal também pode estar afetada.

Nesse contexto, vimos nesse trabalho uma oportunidade para conhecermos com maior profundidade o ciclo estral nas cadelas, suas alterações, etiologia, diagnóstico, e possível tratamento destas.

2. O CICLO ESTRAL NORMAL EM CADELAS

(Feldman,E.C., 1987))

2.1 Início da puberdade

Normalmente as cadelas exibem seu primeiro ciclo alguns meses depois de terem atingido altura e peso adulto. Em raças pequenas corresponde geralmente aos 6-10 meses de idade, enquanto raças grandes podem não ciclar até chegarem aos 18- 24 meses. É relatada uma grande variação racial e até mesmo individual quanto a esse aspecto.

Recomenda-se que o primeiro cruzamento seja realizado durante o segundo ou terceiro estro.

2.2 Intervalos entre os ciclos

A maioria das cadelas inicia um novo proestro a cada 7 meses, mas como ocorre alta variação entre raças e provavelmente sofre influências sociais e ambientais, são considerados intervalos normais àqueles que duram de 5 a 10 meses.

Tabela 1. Número de estros por ano em algumas raças


Basenji                                              1,0
Basset Hound                                     2,0
Beagle                                               1,5
Boston Terrier                                     1,5
Cocker Spaniel                                   2,0
Pastor Alemão                                    2,4
Perkinje                                              1,5
Poodle Toy                                         1,5

Tabela 2. Intervalo interestro em algumas raças (meses)


Basset Hound                                     5,8
Beagle                                               7,4
Boston Terrier                                     8,1
Boxer                                                8,0
Chihauhua                                         7,2
Cocker Spaniel                                   6,0
Pastor Alemão                                   5,0
Perkinje                                             7,7
Scotish Terrier                                    6,5
Poodle Toy                                         8,8

2.3 Fases do ciclo estral

Proestro : É o período em que a atividade folicular é mais alta , precedendo o estro

Estro: Período em que a fêmea aceita o macho para montar e cruzar

Diestro: Associado com a atividade do corpo lúteo, e portanto dominado pela progesterona.

Anestro: É o tempo compreendido entre o fim da fase luteal (diestro) e o início de outra fase folicular (proestro), clinicamente é um período de quietude reprodutiva.

  2.4 PROESTRO

Duração: Aceita-se que o início seja correspondente ao aparecimento de sangramento vaginal, ou ainda outros sinais como mudança de comportamento da fêmea, atração de machos e intumescimento vulvar, e termina quando a cadela permite que o macho monte e cruze. A média de duração é de 9 dias, podendo ocorrer variações normais de 1-2 até 25 dias.

Sinais clínicos : A fêmea desencoraja qualquer tentativa de montar do macho, rosnando, fugindo, mostrando os dentes ou até mesmo mordendo. Observa-se também que a cadela costuma manter a cauda fortemente pressionada contra o períneo.

Tipicamente o proestro é associado com descarga vaginal sanguinolenta, mas nem sempre esta ocorre. Esse sangramento é resultante de diapedese de hemáceas e ruptura de capilares subepiteliais, devido às rápidas mudanças que ocorrem no endométrio em resposta à secreção folicular de estrógeno. A facilidade em se detectar esse corrimento depende do comportamento de limpeza de cada animal e mesmo da raça, sendo percebido mais facilmente naquelas que apresentem pêlos e caudas longos.

A vulva aumenta de tamanho com o decorrer do proestro, com edema e inchaço dos lábios vulvares.

Mudanças hormonais: A cadela em proestro está sob influência do estrógeno sintetizado e secretado pelos folículos ovarianos em desenvolvimento. O estrógeno é responsável pelas alterações de comportamento na fêmea, descargas vaginais, atração de machos, preparação uterina para a prenhez, além de outros eventos proestrais.

No proestro a concentração de estrógeno, que estava em níveis de 8 a 15 pg/ml no anestro, se eleva para 25 pg/ml no início do período chegando a picos de 60-70 pg/ml no final. O pico da concentração plasmática de estrógeno ocorre 24- 48 horas precedendo o estro.

Os níveis de progesterona durante o proestro, exceto nas últimas 12- 48 horas, são basais (<0.5ng/ml). O fim do proestro é caracterizado por elevação dos níveis de progesterona, enquanto que os níveis de estrógeno decaem.

A concentração das gonadotrofinas aumentam no início do proestro, depois  os níveis basais são mantidos até que ocorra o próximo pico, associado com o começo do estro.

Anatomia vaginal e uterina :  A mucosa vaginal no anestro é relativamente frágil, formada por apenas poucas camadas de células. O aumento dos níveis de estrógeno no proestro causa uma rápida multiplicação do número de camadas de células da mucosa vaginal, que se observada à vaginoscopia apresenta-se mais espessa e pregueada.

A ampliação do número de camadas celulares acaba afastando as células luminais cada vez mais do suprimento sangüíneo, resultando na morte dessas células. Essa nova conformação torna o tecido muito menos sensível e menos frágil, não só pelo aumento das camadas mas também através do desenvolvimento de precursores de queratina nessas células, prevenindo assim traumatismos durante a cópula.

Sob os efeitos do estrógeno e progesterona, a mucosa uterina passa por mudanças semelhantes, o endométrio se prepara para a implantação através de um marcante aumento da espessura da parede uterina e da atividade glandular. Essas mudanças podem estar associadas inicialmente a presença de algum sangramento.

Citologia vaginal:

Figura 1. Esfregaço para citologia vaginal

Classificação das células vaginais:

Células parabasais -  São as menores células dentre as células vaginais, redondas ou ligeiramente ovais, apresentam um núcleo grande e relativamente pouca quantidade de citoplasma. Vão sendo descamadas próximas a camada germinativa, perto do suprimento sangüíneo.

Figura 2.  Célula parabasal

Células intermediárias - Variam em tamanho podendo ser classificadas em células intermediárias pequenas e grandes. Apresentam bordos irregulares e núcleos geralmente menores que aqueles das parabasais.

Figura 3.  Célula intermediária

Células superficiais parcialmente queratinizadas - São as células maiores encontradas na citologia vaginal, achatadas e com as bordas anguladas, se coram pobremente. Os núcleos são pequenos e picnóticos.

Figura 4. Célula superficial parcialmente queratinizada

Células superficiais queratinizadas (superficiais totalmente queratinizadas) - São células grandes, mortas e irregulares que representam o fim do processo que inicia-se com as células parabasais. Morreram devido ao espessamento da parede que afastou-as do suprimento sangüíneo. São  grandes com bordas anguladas e achatadas, também já foram chamadas de células queratinizadas ou cornificadas.

Figura 5. Célula superficial totalmente queratinizada

Células espumosas - São células parabasais ou intermediárias que contêm vacúolos citoplasmáticos visíveis.

Figura 6. Célula espumosa

Células metaéstricas - São geralmente células intermediárias grandes que contêm em seu citoplasma um ou mais neutrófilos.

Proestro inicial: Um esfregaço vaginal de uma cadela em início de proestro apresenta-se com variável número de células sangüíneas, numerosas células parabasais e intermediárias. Neutrófilos são comumente encontrados, mas não abundantemente, e bactérias podem ser visualizadas em pequenas ou grandes quantidades. O fundo do esfregaço é aparentemente sujo , devido à presença de secreções cervicais e vaginais viscosas que se coram facilmente.

Proestro médio: A primeira evidência do efeito da ação contínua do estrógeno na citologia vaginal  é o desaparecimento dos neutrófilos, já que estes agora não mais conseguem atravessar a espessa parede de células. As células parabasais e intermediárias pequenas  vão sendo substituídas por células intermediárias grandes e por superficiais- intermediárias. Eritrócitos podem ou não estar presentes, e o fundo pode continuar sujo ou apresentar-se claro.

Proestro final :  O esfregaço já não contém mais neutrófilos, a presença de células sangüíneas é variável, e o fundo é claro. Mais de 80% das células são superficiais com núcleos picnóticos ou anucleadas.

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