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Doenças
corneanas em pequenos animais*
*Corneal diseases in small aniamls
José
Luiz Laus 1
- CRMV-SP nº 3375
Arianne Pontes Oriá 2 -
CRMV-SP nº 1834
1- Prof. Adj.
Dept. Clínica e Cirurgia Veterinária da FCAV - UNESP/ JABOTICABAL
e-mail: jllaus@fcav.unesp.br
2- Médica Veterinária, Estagiária do Serviço de Oftalmologia do Hospital Veterinário
"Governador Laudo Natel" da FCAV - UNESP/ JABOTICABAL
Departamento
de Clínica e Cirurgia Veterinária
Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinária
UNESP Rodovia Carlos Tonanni, km 05
Jaboticabal - SP
RESUMO
Este artigo aborda as principais afecções da córnea em pequenos animais,bem como sua terapia específica.
Unitermos: Cães ,Gatos, Córnea.
Anatomofisiologia da córnea
A
córnea é um disco transparente circular e côncavo-convexo
que ocupa a porção rostral do globo(3,4) . Consiste
de um arranjo singular de tecido conjuntivo, células endoteliais e
membranas basais, avascular e transparente, que tem por funções:
transmitir e refratar a luz, para uma visão ideal e servir como uma
barreira protetora para os conteúdos oculares internos(22,27).
A córnea do cão é composta por cinco camadas distintas:filme
lacrimal pré-corneano, epitélio, estroma, membrana de Descemet
e endotélio (25). É capaz de transmitir a luz por
causa do arranjo regular do colágeno no estroma(27), da
falta de pigmentos, vasos e da manutenção de um relativo estado
de desidratação(22). Vale ressaltar que a manutenção
de tal estado de deturgescência corneana, tão importante para
a transparência da mesma, é garantida por um mecanismo dependente
de energia (bomba de NA+ K+ ATPase)presente em grandes
quantidades tanto no endotélio quanto no epitélio(23,25).
O epitélio corneano é do tipo pavimentoso estratificado não
queratinizado e compreende várias camadas de células poliédricas
ancoradas sobre uma membrana basal, que promove a adesão do epitélio
ao estroma adjacente. O estroma é formado por finas fibras colágenas
do tipo I e II, dispostas em forma de placas paralelas e por queratócitos,
responsáveis pela formação e manutenção
das lamelas fibrosas, constituído mais de 90% da substância corneana.
Linfócitos,macrófagos,neutrófilos,assim como algumas
enzimas estão presentes.
A membrana de Descemet é fina , firme, acetabular, elástica
e aparentemente homogênea. À microscopia eletrônica observam-se
duas camadas pobremente definidas. Uma delas, adjacente ao estroma, consiste
em colágeno tipo II e tem a sua espessura aumentada com a idade. A
outra é a modificação da membrana do endotélio.
O endotélio possui uma única camada de células achatadas
que se encontram na porção posterior à achatadas que
se encontram na porção posterior à membrana de Descemet.
A nutrição da córnea é obtida através da
película lacrimal, difusão de metabólitos da vasculatura
perilímbica e internamente pelo humor aquoso(23). A remoção
dos resíduos catabólicos ocorre pelas mesmas vias(3).
A córnea é ricamente suprida por nervos sensoriais derivados
da divisão do quinto par de nervos cranianos. Os troncos nervosos penetram
no estroma junto ao limbo, avançando radialmente em direção
à córnea central, onde se ramificam repetidas vezes, terminando
no epitélio como terminações nervosas livres(3).
Mecanismos envolvidos com a reparação corneana
Após
uma injúria que danifica ou remove o epitélio corneano, a cicatrização
da lesão segue uma seqüência sistematizada de even-tos (15).
Decorrida uma hora da injúria, as células da camada basal do
epitélio começam a se aplainar e seis horas após a lesão,
estas, por deslizamento, cobrem o defeito corneano. A mitose é ativa
três a quatro dias após a injúria e ao término
de 5 a 7 dias a córnea apresenta-se aparentemente íntegra(3,4,15).
Defeitos envolvendo o epitélio e o estroma anterior também cicatrizam
pelo deslizamento epitelial e mitose (1). Por seu relativo estado
metabólico inativo, o estroma evolui para reparação do
tipo cicatricial de maneira mais lenta em face da complexidade que envolve
o processo reparatório(15). Lesões estromais não
complicadas podem cicatrizar-se de forma avascular; contudo, em lesões
infectadas ou destrutivas, a presença de vasos é uma constante,
assim como acontece em outros locais do corpo(15).
As úlceras tornam-se complicadas quando há persistência
da causa, aderência e proliferação bacteriana, paralelamente
à ação de enzimas líticas(3).
Semiologia da córnea
Exame
ocular e testes diagnósticos
complementares
O
exame oftalmológico deve incluir uma avaliação sistemática
de todas as estruturas oculares, começando com os anexos e mo-vendo-se
em sentido antero-posterior(15).
Numerosas doenças podem ser encontradas nas margens palpebrais, incluindo
triquíase, cílio ectópico, pregas nasais, distriquíase,tumorações,
lesões traumáticas, entrópio e ectrópio. A função
das pálpebras é avaliada pela frequência de sua sincursões
(considerando-se como normais quatro a cinco incursões por minuto)
e a extensão do fechamento palpebral (15).
A produção lacrimal é avaliada, através do teste
da lágrima de Shirmer(3). Segundo PERUCCIO et al.(20),
os valores normais para o cão variam entre 15 e 25mm por minuto; valores
menores que 10mm por minuto são sugestivos de deficiência na
produção lacrimal. O gato apresenta valores normais discretamente
inferiores e mais variáveis. Drogas parassimpatolíticas e anestésicos
locais reduzem a produção de lágrima. Não obstante,
a manipulação do olho e a utilização da fluoresceína
podem aumentar estes valores(25).
A sensibilidade corneana deve ser avaliada tocando-se sua superfície.
Ato contínuo instila-se colírio anestésico (hidrocloridrato
de proparacaína a 0,5 %) no saco conjutival para, em seguida, com um
pequeno fórceps, expor a face medial da terceira pálpebra e,
examinando-a em sua superfície, localizar corpos estranhos, tecidos
hiperplásicos, inflamação e formação de
folículos(9).
O bom exame da córnea obriga empregar o biomicrocópio em lâmpada
de fenda, todavia tal equipamento,face o seu custo, não se encontra
ao alcance da maioria dos proficionais. Alternativamente, o exame poderá
ser conduzido com lupa Pala e uma fonte de luz artificial, como o transiluminador
de Finoff(3).
As úlceras de córnea podem não ser visíveis claramente,
mesmo com uma boa iluminação; por esta razão, todos os
olhos suspeitos devem receber o teste da fluoresceína(25).
O tingimento externo é útil no diagnóstico de lesões
corneanas, porquanto o epitélio intacto, por seu alto conteúdo
lipídico, obsta a penetração do corante hidrofílico
não sendo por ele tingido. Qualquer rotura na barreira epitelial permitirá
a rápida penetração da fluoresceína no estroma
e sua fixação.(1).
O emprego do corante Rosa de Bengala é menos admitido, porém
é útil no diagnóstico da ceratoconjutivite seca(15).
Este teste permite aferir o grau de deterioração das células
epiteliais e detectar erosões intra-epiteliais dendríticas causadas
por herpesvírus, que são de difícil detecção
pela fluoresceína(25,12,20).
Swabs e raspados conjutivais devem ser preconizados para o isolamento
e identificação de eventuais contaminantes.
Reações corneanas às ceratopatias
As
maiores barreiras ao edema de córnea são o endotélio
e o epitélio íntegros. Quando uma delas é danificada,
há embebição do estroma. Ofenômeno pode estar relacionado
a uma variedade de causas:distrofia endotelial,dano endotelial associado à
membrana pupilar persistente, trauma mecânico,reações
tóxicas, uveíte anterior, endotelites,glaucoma,neovascularização
e ulcerações superficiais ou profundas(26).
A córnea normal não contém vasos sangüíneos.
Os vasos, que podem ser superficiais ou profundos, invadem o estroma em em
respostas à injuria(25).
Na vascularização profunda, estes surgem sob a margem escleral
límbica, com pouca tendência à ramificação:são
obscurecidas pela projeção da esclera no limbo. Os vasos superficias
podem ser vistos de permeio ao limbo e originalmente são conjutivais
(2,23).
Quando a neovascularização retrocede, tais vasos perdem o seu
conteúdo intraluminal, contudo, suas paredes permanecem. A estes dá-se
o nome de "vasos fantasmas"que podem ser visualizados como traços
pálidos na córnea pela retroiluminação(2).
Lesões estromais complicadas, especialmente quando a injúria
persiste, mantém os vasos neoformados e propiciam a gênese do
tecido de granulação.
A reparação da córnea é realizada pela fixação
de ceratócitos e invasão de fibroblastos e macrófagos.
Fibras de colágeno produzidas são depositadas irregularmente
obstando a passagem da luz.
A pigmentação resulta da migração de melanócitos
provenientes do limbo e de tecidos perilímbicos, sendo mais comumente
associada à inflamação crônica. Segundo GELATT(6),
a pigmentação corneana é encontrada em desordens como
a ceratite superficial crônica (panus), síndrome da ceratite
pigmentar em raças braquicefálicas, ceratoconjuntivite seca
e ceratite ulcerativa crônica. A pigmentação pode também
ocorrer no glaucoma crônico e, neste caso, vir acompanhada por mudanças
corneanas degenerativas.
Principais anormalidades do desenvolvimento e doenças congênitas
A
microcórnea é usualmente associada à microftalmia. Trata-se
de anomalia hereditária e de ocorrência nas raças Poodle,
Sch-nauzer miniatura e Collies. O sinal clínico corresponde a uma córnea
de diâmetro inferior a 12 mm, acompanhado de aumento da porção
escleral,sem exoftalmia (26).
O termo megalocórnea refere-se a uma córnea de tamanho maior
que o seu normal e de diâmetro horizontal de aproximadamente 16 a 18
mm. É uma anomalia congênita, rara em cães e geralmente
associada ao glaucoma congênito e à buftalmia(26).
O dermóide é uma massa de tecido cutâneo que aparece numa
posição ectópica. Usualmente é encontrado na área
temporal do limbo, estendendo-se à córnea e à esclera.
Estas formações contém epitélio queratinizado,
pêlos, vasos sangüíneos, tecido fibroso, gordura, fibras
nervosas, glândulas, musculatura lisa e podem conter ainda cartilagem
(Figura 1). A sua remoção obriga realizar procedimentos em ceratectomia
superficial(26).

Figura 1 - Olho de cão apresentando dermóide corneano. Notar formação cutânea e seus anexos em córnea.