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Distrofias e degenerações corneanas
As degenerações e distrofias corneanas exibem característica similares, mas representam diferentes processos patológicos. As degenerações são o resultado de inflamações locais e podem estar associadas com desordens sistêmicas, assim como com processos senis. As distrofias são desordens do desenvolvimento, freqüentemente hereditárias, que afetam a córnea axial prejudicando a visão. Segundo as camadas da córnea acometidas, as distrofias podem ser subdivididas em: epiteliais, estromais (anterior e posterior) e endoteliais(6).
Distrofia epitelial
A
distrofia epitelial é provavelmente a responsável pela síndrome
da erosão corneana refratária. As erosões epiteliais
refratárias, úl-ceras persistentes, erosão recorrente,
úlceras indolentes e úlceras do Boxer são denominações
para as úlceras superficiais, que tendem à recorrência(6).
Nas úlceras refratárias as lesões são devidas
à separação entre o epitélio corneano e o estroma,
provavelmente por defeitos em hemidesmossomos juncionais entre as células
basais do epitélio e suas membrana basal(25). Esta condição
foi originalmente descrita em cães da raça Boxer e, provavelmente,
se dá em outras raças (8).
O diagnóstico é baseado nos sinais clínicos, nas história
e na semiotécnica oftálmica. Muitos animais apresentam-se, inicialmente,
com dor ocular aguda, evidenciada por fotofobia e blefaroespasmo. As úlceras
ocorrem espontaneamente sem nenhuma história de trauma prévio
são caracterizadas por seu curso crônico, natureza superficial,
fala de vascularização e de outros sinais inflamatórios.
O edema pode ser discreto a moderado e as bordas da úlceras usualmente
encontram-se irregulares face à perda epitelial circunjacente (4,19).
A terapia visual para as úlceras refratárias consiste no debridamento
do epitélio não aderido, com ou sem agentes químicos.
A remoção deste favorece a multiplicação de epitélio
adjacente e a produção de uma neomembrana basal e hemidesmossomos(26).
Os antibióticos tópicos de amplo espectro estão indicados
na profilaxia de infecções bacterianas. A atropina a 1% tópica
é admitida como escopo de amenizar a dor produzida pela uveíte
reflexa(26).
Distrofias e degenerações estromais
A
lipidose corneana é uma degeneração freqüente na
córnea de cães idosos. Nos Pastores Alemães tem sido
associada à hiper-colesterolemia e hipertrigliceridemia(6).
A lipidose também se manifesta como uma distrofia corneana bilateral
em Poodles toy e miniaturas jovens, nos Afghan Hounds e em outros raças.
São evidenciados depósitos brancos, de translucentes a opacos,
usualmente localizados no estroma corneano anterior. A neovascularização,
nestes casos, pode estar presente(6).
Há casos que estes depósitos motivam a ocorrência de inflamação
corneana superficial severa. Se a lipidose interferir na visão ou permitir
que haja desconforto, a ceratectomia superficial está indicada, visando
a remoção integral ou parcial da lesão. Recorrências
pós ceratectomia são habitualmente infreqüentes(6).
Distrofia endotelial
As
distrofias endoteliais têm sido descritas no Boston terrier, Dachshund
e Chihuahua. A condição acomete geralmente os cães idosos
e manifesta-se com sinais de edema de lenta progressão inicialmente
na córnea axial. Outros sinais oculares são em geral inexistente.
Com a progressÃo, podem advir vascularização, pigmentação
e ceratite bolhosa(6).
O edema de córnea pode ser minimizado pela instilação
de agentes hipertônicos como o cloreto de sódio em concentrações
variáveis de 2 a 5 %, bem como pelo emprego de glicose em solução
hipertônica. A despeito dos benefícios obtidos com estas soluções,
alguns pacientes podem se tornar desconfortáveis face à irritação
por eles produzida. Nestes casos recomenda-se interromper o seu emprego(6).
Neoplasias
As
neoplasias da córnea são raras quase sempre representam uma
extensão secundária de lesões com sítio primário
em outro segmento do bulbo ocular. Os melanomas epibulbares ou límbicos
apresentam-se usualmente na forma de lesões pigmentadas; todavia há
casos em que são de progressão variável e evoluem lentamente
em cães idosos(6,26).
Adenocarcinomas, assim como os carcinomas de células escamosas, raramente
ocorrem na córnea de cães. Apresentam-se de coloração
branca e rósea, como massas elevadas e multibuladas. Na maioria dos
casos, não há envolvimento do limbo(26).
O tratamento consiste na excisão local da massa, por ceratectomia superficial
combinada com procedimentos em crioterapia ou radiação Beta,
visando diminuir a recorrência(6,26).
Ceratites
Ceratites superficial punctata
As
ceratites punctatas podem apresentar-se uni ou bilateralmente como defeitos
superficiais do epitélio corneano. O centro das le-sões puntiformes
cora-se com fluoresceína. Alguns sinais clínicos observados
são:conjutivite, blefarospasmo e epífora. A vascularização
da córnea pode ocorrer em casos crônicos(13).
Esta patologia pode ser induzida por inúmeras condições
aviltantestais como: exposição crônica da córnea
em pacientes sob efeito de anestesia geral, ceratites de exposição
em raças branquicefálicas e o emprego de anestésicos
tópicos(25). A terapia específica, porquanto a determinação
do agente causal, pode estar dificultada(25).
"Florida Spots"
Opacidades corneanas em animais que habitam climas tropicais e subtropicais foram recentemente descritas no cão e no gato. As lesões, que passaram a ser denominadas "Florida Spots", são caracterizadas por opacificações de coloração branca ou branca-acinzentada, de tamanhos variados,circunscritas e multifocais, encontradas no estroma corneano(Figura 2). Trata-se de condição não responsiva à corticoterapia, à antibioticoterapia bem como aos antimicóticos tópicos. A córnea apresenta-se desprovida de quaisquer indícios de inflamação e os olhos não exibem nenhum desconforto ou irritação. A função ou visão funcional é raramente afetada(26).
Ceratite superficial crônica ( Panus )
A
ceratite superficial crônica é uma enfermidade que acontece cães,
de caráter progressivo e inflamatório, podendo conduzir à
ce-gueira. Como sinonímias, reconhecem-se os termos: Panus do Pastor
Alemão, Panus degenerativo, Ceratite superficial estromal e Síndrome
de Uberreiter's(26).
A condição manifesta-se bilateralmente na forma de lesão
avermelhada, vascularizada, com infiltração subepitelial de
tecido conjuntivo. Geralmente o epitélio corneano permanece intacto,
e a migração de pigmentos (melanose corneana) comumente acompanha
o infiltrado fibrovascular inflamatório, que invade o estroma anterior(26).
Relativamente a sua etiologia, face à resposta terapêutica a
imunossupressivos, acredita-se tratar de enfermidade imunomediada(24,13,6,26).
A desordem apresenta, ainda, correlação positiva com altitudes
elevadas e aumento dos níveis de radiação ultravioleta.
Muitas sào as raças que podem desenvolver o Panus; não
obstante, é o Pastor Alemão o mais acometido(24).
O diagnóstico é baseado nos sintomas, que exibem lesões
bilaterais compostas primariamente por vascularização, pigmentação
ou pela combinação de ambas (Figura 3). As lesões envolvem
o quadrante corneano temporal em mais de 95% dos casos(24).
O tratamento consiste na utilização de agentes antiinflamatórios
tópicos potentes como os corticosteróides ou a ciclosporina
A. Nos casos de lesões muito extensas e não responsivas à
terapia clínica, ceratectomia superficial ou a aplicação
de radiação Beta tem sido por vezes preconizada(24).
Recomenda-se como alternativa terapêutica, a criocirurgia, empregando
o nitrogênio liquido ou
óxido nitroso(24).

Figura 2 - Olho de cão com "Florida Spots" . Observa-se opacidade corneana puntiforme, circunscrita e multifocal.

Figura 3 - Olho de cão evidenciando uma ceratite superficial crônica (Pannus) . Notar tecido conjuntivo ricamente vascularizado invadindo a córnea.