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Ceratite pigmentar

A ceratite pigmentar é condição comum em cães em que o pigmento é carregado ao epitélio e estroma superficial, em associação com ceratites crônicas(25). O sítio de pigmentação na córnea pode permitir a identificação da fonte de irritação. A pigmentação focal está habitualmente associada à distiquíase, entrópio, ectrópio, pregas nasais e cílios aberrantes(6). A ceratite pigmentar central ocorre na ceratoconjutivite seca, ceratite por exposição, lagoftalmia e ceratite neuroparalítica(6).
O tratamento consiste na remoção do agente causal(6). Corticoperapia tópica (na ausência de úlceras), preparações com lágrimas artificiais, estimulação da produção lacrimal pela utilização de pilocarpina oral ou da ciclosporina tópica, bem como procedimentos em certactomia superficial podem ser úteis em alguns casos(6,25).

Ceratite ulcerativa

A ulceração é a doença corneana mais comumente observada em cães e gatos e é caracterizada pela perda do epitélio e do estro-ma superficial, com ou sem perda do tecido cornenano profundo(13,5).
A ulceração da córnea exibe ampla variedade de causas,mas o trauma é, provavelmente, o mais comum entre os agentes envolvidos(10).
As causas infecciosas incluem : infecções bacterianas (possivelmente precedidas por um trauma inicial) por Staphilococcus e Pseudomonas aeruginosa , infecções micóticas como a aspergilose e a candidíase e infecções virais pelo Herpesvírus felino tipo I (10,13,23).


Figura 4 -
Olho de cão apresentando ulceração corneanas. Notar depressão e edema perilesional.

As úlceras podem ser secundárias a outras enfermidades corneanas, como as distrofias epiteliais, o edema crônico nos casos de glaucoma e as ceratites neurotróficas(25).
Quando à perda de substância têm sido incriminados os corpos estranhos, anormalidades dos cílios (distiquíases, triquíases e cílios ectópicos), arranhadura por gato, traumas químicos (ácidos e álcales), anormalidades palpebrais(entrópio, ectrópio, lagoftalmia ou exoftalmia e buftalmia). Há, ainda, causas relacionadas à paralisia do nervo facial e doenças do filme lacrimal(10,12,4,2,15,25,5).
As úlceras freqüentemente exibem sinais clínicos clássicos, traduzidos por fotofobia, bleforospasmo, epífora e perda da transparência pela invasão de vasos, migração de células inflamatórias devido ao edema, desarranjo das lamelas de colágeno, resultante da reparação cicatricial, deposição de pigmentos e de outras substâncias como lipídios e cálcio(25,22).
As úlceras superficiais usualmente são pequenas e resultantes de injúria mecânica(4). As úlceras profundas são geralmente de formas ovuladas ou arredondadas, de margem abrupta e circundadas por edema e infiltração vascular(17)(Figura 4). Dentre as complicações, destacam-se as perfurações e as uveítes secundárias(25).
A terapia consiste na profilaxia ou no controle da infecção, da erosão e na retirada da causa(13). No geral, o tratamento deve ser direcionado para a prevenção ou eliminação da contaminação, controle da uveíte, analgesia, interrupção da destruição tecidual,
preservação da transparência e da função corneana e suporte tecidual(10).

Ceratite herpética

Ceratites virais como causa de ceratites ulcerativas em cães têm sido incriminadas, contudo não há comprovação(10). Ao con-trário dos cães, em gatos, o Herpesvírus felino é causa importante de ulceração corneana(9).A ceratite herpética pode acometer felinos de qualquer faixa etária; todavia são reconhecidos como mais freqüentes os casos acometendo animais adultos com sinais leves de afecção do trato respiratório superior. Cabe lembrar que se trata de afecção manifesta uni ou bilateralmente(16).
As úlceras herpéticas apresentam-se segundo um ou vários padrões. Podem ser pequenas e numerosas (punctatas), lineares e ramificadas (úlceras dendrítica) e geográficas(19). Os sinais clínicos exibem ainda conjuntivites de leves a moderadas até a perfuração da córnea com perda do olho afetado (16). Agentes antivirais tópicos devem ser utilizados por, no mínimo, duas semanas. A trifluridina, droga de escolha, é particularmente indicada, porquanto penetra melhor a córnea(7). No nosso meio, a idoxuridina tem sido também empregada.

Ceratite ulcerativa com
sequestração de córnea em felinos

A ceratite ulcerativa crônica, com sequestração do estroma corneano,é de ocorrência exclusiva nos felino.A condição é ainda de-nominada de mumificação focal ou ceratite necrosante (14,7). No seqüestro corneano a lesão pode-se apresentar na forma de placa, elevada ou superficial, central ou paracentral e bem circunscrita, oval e de coloração castanha-escura ou negra, acompanhada por epífora, blefarospasmo, opacidade, hiperemia conjutival e, ocasionalmente, quemose(27,7).
A respeito das inúmeras incursões realizadas no sentido de se estabelecer a causa, está não é ainda conhecida. agentes cáusticos, malformação palpebrais, ceratoconjutivite seca, herpesvírus felino, trauma e infecções bacterianas têm sido incluídos entre os prováveis precursores do seqüestro corneano (14,7). O tratamento consiste na excisão da lesão focal pela ceratectomia superficial. Antibioticoterapia profilática e drogas ciclopégicas podem ser associadas. Nas lesões profundas o emprego de enxertos ou de pedículos de conjutiva pode estar indicado(7).

Ceratoconjutivite seca/ CCS/KCS

A ceratoconjutivite seca ou olho seco é problema oftálmico comum em cães. A condição geralmente resulta da deficiência do componente aquoso do filme lacrimal pré-corneano e exibe várias facetas: predisposição racial, hipotireoidismo, paralisia do nervo facial, medicamentos (atropina, sulfonamidas), excisão cirúrgica da glândula da terceira pálpebra, conjuntivite e cinomose têm sido incriminados(28). Estudos recentes têm mostrado que tanto a KCS dos cães como a de indivíduos da espécie humana têm sua gênese a partir de alterações do sistema imunogênico(18).
O diagnóstico é baseado nos sinais clínicos e nos resultados obtidos com teste lacrimal de Schirmer. O sinal marcante em pacientes acometidos traduz-se por secreção ocular mucóide a muco-purulenta, que se adere ao epitélio e que, normalmente, acompanha perda brilho na córnea e hiperemia conjuntival(28) (Figura 5). Casos agudos podem produzir ulcerações superficiais , profundas e até a perfuração da córnea. Todavia são encontradas manifestações superficiais crônicas com deterioração progressiva da visão. A vascularização e a pigmentação são de ocorrência sistemática(28).

Figura 5 - Olho de um cão apresentando ceratoconjuntivite seca. Note-se edema, neovasos, depósitos de pigmentos e descargas ocular e periocular.

A abordagem terapêutica convencional consiste de instilações freqüentes de lágrima artificial, drogas antiinflamatórias, mucolíticos e antibióticos; e da utilização oral de pilocarpina - solução oftálmica a 1%, instilada 1 a 2 gotas ao dia, na refeição principal. Atualmente a ciclosporina A, na forma de colírio ou pomada, em diferentes concentrações e a intervalos de 12 ou 24 horss, tem sido empregada no alívio dos sinais clínicos e na lacrimogênese.(21,25,28).

SUMMARY

This Article shows the most common corneal diseases in small animal clinics, as well as their treatments.

Uniterms: Dog, Cat, Cornea

BIBLIOGRAFIA DE APOIO

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* Extraído de: Revista de Educação Continuada do CRMV-SP / Continuous Education Journal CRMV-SP
  São Paulo, volume 2, fascículo 1. p26 - 33, 1999.

* Com Autorização de Prof. Dr. José Luiz Laus