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São Paulo,


A redução de agregação de plaquetas tem sido associada ao uso de fenotiazínicos, barbitúricos (O'Rourke et al., 1986) e halotano (Dalsgaard-Nielson et al., 1981). Embora existam vários relatos afirmando que os AINES podem inibir a agregação de plaquetas (BOVILL, 1997), os AINES mais recentes possuem uma maior afinidade por COX 2 do que pela COX 1, resultando em efeitos antiinflamatórios mais potentes e efeitos colaterais mais amenos (VANE, 1995), o que explicaria a estabilidade da função plaquetária e no tempo de coagulação sangüínea dos AINES aqui utilizados (Tabela 3).

Não foi registrado nenhum resultado positivo de sangue oculto nas fezes nos animais do grupo CON e BUP (Tabela 3).

O carprofeno é aparentemente seguro em relação aos efeitos colaterais no sistema digestório (Strub et al., 1982), sustentado pelos achados de McKellar et al. (1990). Em contrapartida, alguns trabalhos relatam, como neste, a presença de sangue oculto nas fezes de cães tratados com carprofeno (Nolan & Reid, 1993), embora os autores questionem a precisão do método. Devido a estes relatos, em todos os animais que apresentaram resultado positivo para sangue oculto nas fezes repetia-se o teste nas fezes frescas encontradas no canil, pois qualquer lesão na mucosa durante a colheita realizada na ampola retal poderia inferir em resultado falso positivo.

O ketoprofeno também tem-se mostrado um fármaco seguro em cães (Pibarot et al., 1997) e, apesar de cinco dos seis animais apresentarem sangue oculto nas fezes, não foi observado nenhum sinal clínico, tal como vômito e diarréia. Forrsyth et al., 1996, administrando ketoprofeno (1mg/kg) a cada 24 horas, durante sete dias em cães, não detectaram sangue oculto nas fezes ou outros sinais clínicos. Porém observaram lesões gastroduodenais através de endoscopia em quase todos os cães, demonstrando ser esta última avaliação mais fidedigna.

Diferente dos outros dois AINES utilizados neste experimento, o flunixin tem sido associado a lesões no sistema digestório em caninos (Cruz et al., 1998). Com base nestes dados, a literatura recomenda seu uso por apenas três dias, o que não seria o suficiente para o controle da dor pós-operatória em cirurgias ortopédicas. As alterações na mucosa do sistema digestório produzidas pelo flunixin estão diretamente relacionadas com a dose, freqüência e via de administração (Vonderhaars & Salisbury, 1993), motivos pelos quais foi realizado um estudo anterior utilizando diferentes doses, freqüências e vias de administração, onde concluiu-se que 1 mg/kg de flunixin administrado pela via oral durante sete dias não causou lesão macroscópica e microscópica no sistema digestório (Cruz et al., 1998). Apesar disto, neste estudo observou-se sangue oculto nas fezes em quatro cães do grupo FLU, sendo que apenas um animal apresentou diarréia, durante o quinto e sexto dia de tratamento, recuperando-se totalmente no sétimo dia de tratamento.

Para se obter o máximo efeito benéfico de um antiinflamatório no pós-operatório, convém administrá-lo antes da injúria tecidual (Welsh et al., 1997). Entretanto, por inibir a síntese de prostaglandina, deve-se ter cuidado com sua utilização no pré ou trans-operatório, pois a prostaglandina é um importante modulador da hemodinâmica renal, a qual exerce pequena influência no fluxo sangüíneo renal e filtração glomerular em circunstâncias normais, mas tem um efeito protetor renal significativo em cães hipotensos, em situação de hipoperfusão renal (Nolan & Reid, 1993), quando a pressão arterial média abaixo de 70 mmHg. Além da influência dos AINES, a anestesia com o halotano reduz o fluxo sangüíneo renal, e o uso conjunto destes fármacos pode aumentar o risco de falência renal (McNeil, 1992; Elwood et al., 1992).

Alguns trabalhos relatam falência renal aguda após o uso de flunixin em cães (Elwood et al., 1992; McNeil, 1992), o que demonstra a necessidade de estudos mais detalhados com relação ao efeito deste fármaco na função renal. O ketoprofeno, por sua vez, não induziu alterações urodinâmicas no homem (Malinovisky et al., 1998) e o carprofeno (4 mg/kg) não promoveu efeito adverso na função renal em cães (Lascelles et al., 1995).

Os animais dos FLU, CAR e CON apresentaram redução do clearance de creatinina (Tabela 3). Entretanto apenas animais do grupo FLU atingiram pressão arterial média abaixo de 70 mmHg, quando provavelmente haveria necessidade de liberação de prostaglandina, para melhor regulação do fluxo renal. Apesar desse achado, a média da concentração de uréia no grupo FLU reduziu, ao final de uma semana, indicando que não houve comprometimento renal neste grupo.

A depressão cardiorrespiratória observada em todos os grupos, levando à redução da freqüência respiratória e volume minuto, acidose respiratória e hipotensão, é um efeito largamente documentado e estudado na literatura. Estes atributos foram avaliados apenas para se certificar de uma possível alteração dos mesmos, que pudessem interferir nas outras variáveis avaliadas.

Em todos os grupos houve redução gradativa da temperatura devido às alterações orgânicas induzidas pela anestesia, as quais alteram os mecanismos de controle térmico (Haskins, 1987).

Com os resultados obtidos pode-se concluir que a utilização de analgésicos, principalmente os AINES, produzem menor incidência de complicações cirúrgicas. O flunixin, ketoprofeno, carprofeno e buprenorfina controlaram a dor pós-operatória, sendo que a buprenorfina causou maior sedação que os AINES, sem nenhum outro efeito colateral. O único efeito colateral importante com o uso dos AINES foi a incidência de sangue oculto nas fezes, porém a redução do estresse endócrino e da dor, bem como a menor ocorrência de complicações no pós-operatório, aparentemente indicam o uso destes fármacos no pré e pós- operatório em cães submetidos à osteossíntese de fêmur.


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* Trabalho vencedor do Prêmio de Pesquisa Clínica Schering-Plough Veterinária (categoria Banamine®).

1 Mariângela Lozano Cruz, Stelio Pacca Loureiro Luna, José Ribamar da Silva Junior, Paulo Iamaguti, Adalberto Crocci, Regina Kiomi Takahira.
Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, Unesp, Campus de Botucatu, Botucatu, SP, BRASI

Artigo publicado na VetNews www.splough.com.br

Autorização para publicação no Redevet: Schering-Plough

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