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Osteoartrite:
Fisiopatologia e expectativas relacionadas ao tratamento
Spencer A. Johnston, VMD, Diplomate, ACVS
Departamento de Ciências Clínicas de Pequenos Animais
Colégio Regional de Medicina Veterinária de Virgínia
- Maryland
Virginia Tech
Blacksburg, VA 24061-0442 USA
Apresentado no Simpósio Pfizer realizado juntamente com o XXIII Congresso da Associação Mundial de Veterinários de Pequenos Animais, 6 de outubro de 1998, Buenos Aires, Argentina.
A osteoartrite é uma condição degenerativa, de progressão lenta, que afeta as articulações móveis. Quase todos os casos de osteoartrite são secundários a uma outra condição. Provável resultado de um defeito existente na cartilagem articular ou no metabolismo do colágeno,1 a osteoartrite primária raramente é reconhecida em medicina veterinária. Por outro lado, as duas causas mais comuns da osteoartrite são forças anormais atuando sobre uma cartilagem normal, ou forças normais atuando sobre uma cartilagem normal, ou forças normais atuando sobre uma cartilagem anormal. Exemplos do primeiro caso são uma fratura que envolve uma superfície articular2 ou quando uma articulação está instável, como ocorre quando há o rompimento do ligamento cruzado cranial. Um exemplo do segundo caso é quando há a presença de uma condição como a osteoartrite,3'4 fazendo com que a cartilagem espessada, anormal, da região afetada não possa resistir às forças associadas com a atividade normal e, posteriormente, se apresente danificada. Independentemente da causa, o dano sofrido pela matriz da cartilagem e pelos condrócitos inicia um círculo vicioso de degradação da cartilagem, que acaba resultando em alterações articulares e periarticulares, comumente reconhecidas clinicamente como osteoartrite. Uma vez que as alterações características da osteoartrite estejam presentes, o tratamento é direcionado para o alívio dos sinais clínicos. Ainda que haja uma ampla discussão na imprensa leiga sobre medicamentos ou suplementos que possam trazer uma influência condromoduladora, são poucos os dados sobre tratamentos que alteram o curso da alteração patológica. Na verdade, a maioria dos medicamentos atualmente disponíveis são paliativos para os sinais dolorosos desta doença.
Em geral, a osteoartrite é definida pelas alterações
que ocorrem na superfície articular, mas é importante ter em
mente que clinicamente a condição não está limitada
a alterações da cartilagem. As mudanças que envolvem
a superfície articular também afetam as estruturas que formam
e circundam a articulação, incluindo a sinóvia, a cápsula
articular, o osso subcondral, os ligamentos, os músculos e os tendões
(Figura 1). Frequentemente, estas mudanças levam a claudicação,
dor e incapacidade. A dor crônica resultante da osteoartrite pode criar
uma hiper-sensibilidade generalizada a outros estímulos e alterar a
sensação geral de bem-estar do animal. Muitas vezes isto se
manifesta sob forma de modificações de comportamento, apetite
e padrão de sono. Ainda que a osteoartrite não seja considerada
uma doença sistêmica, é importante reconhecer que a alteração
na função articular afeta a mobilidade e tem impacto sobre o
paciente como um todo, e isto influencia as decisões relativas ao tratamento
da osteoartrite.

Figura
1. Anatomia normal (à
esquerda) e alterações patológicas associadas com a osteoartrite
(à direita). As alterações patológicas envolvem
a superfície articular, o osso subcondral, a sinóvia, a cápsula
articular e os ligamentos vizinhos. A remodelagem óssea e a produção
de osteófitos são características da osteoartrite.
(Adaptado de: Caron JP. Neurogenic factors in Ioint pam and disease pathogenesis.
ln: CW Mcllwraith and GW Trotter, eds. Joint Disease in the Horse. Philadelphia,
PA: WB Saunders Co; 1996:73; com autorização).
A articulação normal
A cartilagem articular normal consiste de condrócitos e matriz extracelular. Apesar de estar localizada em uma matriz avascular, aneural e alinfática, os condrócitos têm capacidade de síntese. Sua atividade metabólica inclui a função anabólica de produzir colágeno e proteoglicanos, importantes componentes da matriz de colágeno, além de terem capacidade de produzir enzimas degradativas (metaloproteinases). Esta função anabólica é necessária como parte do turnover normal da matriz, que ocorre muito lentamente na cartilagem saudável.5 As principais metaloproteinases incluem a colagenase e a estromelisina. A primeira atua sobre as fibrilas de colágeno para decompor o esqueleto estrutural da cartilagem, e a segunda desdobra tanto os proteoglicanos como o colágeno. A atividade catabólica destas enzimas permite que um condrócito modifique seu ambiente pericelular como resposta aos esforços a que está exposto.6 Sob condições metabólicas normais, as atividades anabólica e catabólica coexistem igualmente para manter a cartilagem saudável.
Os proteoglicanos são moléculas compostas principalmente de
uma proteína central a que estão ligadas cadeias laterais de
glicosaminoglicanos (Figura 2). A combinação de uma proteína
central e de cadeias laterais de glicosaminoglicanos forma um monômero
proteoglicano. Os glicosaminoglicanos são cadeias de unidades de dissacarídeos
que se repetem e têm carga negativa. Esta carga negativa faz com que
haja uma repelência entre eles, resultando em resistência à
compressão. O nome dado ao monômero proteoglicano mais comumente
encontrado na cartilagem articular é agrecano. Os glicosaminoglicanos
que formam o monômero agrecano são condroitina e sulfato de queratina
(Figura 2). Muitos destes monômeros agrecanos ligam-se a uma molécula
de hialuronato para formar um agregado de agrecanos. O comprimento do agregado
de agrecanos depende da localização e da condição
da cartilagem articular. Os proteoglicanos conferem à cartilagem a
sua rigidez compressiva.
A principal função das fibrilas de colágeno é
dar suporte estrutural para a matriz da cartilagem. As fibrilas de colágeno
resistem de forma efetiva às forças de tração
aplicadas sobre a cartilagem. O colágeno do tipo II é o tipo
predominante, mas o colágeno do tipo IX tem a importante função
de conectar as fibrilas de colágeno tipo II para formar uma malha que
restrinja os proteoglicanos produzidos pelos condrócitos.7'8 Como são
altamente hidrofóbicos, os proteoglicanos absorverão água
e aumentarão em muitas vezes o seu tamanho original, formando um gel
livre, se não tiverem nenhuma restrição. Quando restringidos
pelas fibrilas de colágeno, a interação entre a água
e os proteoglicanos cria uma pressão osmótica de inchamento,
que confere à cartilagem a sua turgidez articular normal (Figura 2)
.(9)
De modo geral, os condrócitos e o colágeno são orientados
dentro da matriz da cartilagem de maneira a permitir uma maior resistência
diante das forças a que a articulação pode estar submetida.
Morfologicamente, há um padrão zonal baseado na organização
dos condrócitos, orientação das fibrilas de colágeno
e a distribuição de proteoglicanos (Figura 2). Esta orientação
das fibras de colágeno e proteoglicanos forma um material composto,
reforçado pelas fibras, que resiste às forças de compressão
e tração sem sofrer danos, e permite a transmissão destas
forças ao osso subcondral subjacente. A ruptura desta organização
é o marco da osteoartrite.
As estruturas periarticulares também são parte integrante da
função articular normal. A sinóvia, ou a combinação
da camada de revestimento (normalmente com espessura de uma ou duas células)
e tecido subsinovial, envolve a articulação.