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EFICÁCIA DO OTOMAX* NO TRATAMENTO DA OTITE BACTERIANA
E FÚNGICA DE CÃES
Trabalho vencedor
do Prêmio de Pesquisa Clínica
Schering-Plough Veterinária 1999(categoria Otomax®)
R. A. Mota 1,
J. K. O. Farias 2, L. B. G. da Silva 3,
E. T. de Lima 2, A. A. F. Oliveira 3, R. T. D. de Moura 2
Com o objetivo de estudar os agentes bacterianos e fúngicos envolvidos na otite externa de cães procedentes da Região Metropo-litana do Recife e avaliar a eficácia do Otomax* no tratamento desta patologia, foram utilizados 52 animais clinicamente doentes. As secreções otológicas foram submetidas a exames citológico e microbiológico. Os agentes mais prevalentes foram o Staphylococcus spp. (27,72%) e o Pityrosporum canis (22,77%). O Otomax* foi utilizado no tratamento de cães com otite bacteriana, fúngica ou associações destas, demonstrando eficácia de 100% nos animais avaliados.
INTRODUÇÃO
Segundo Greene
et al. (1993) a otite externa resulta de qualquer inflamação
do conduto auditivo externo, com numerosos agentes etiológicos envolvidos
e fatores predisponentes que se relacionam com a infecção em
cães e gatos. A resposta ao tratamento pode ser complicada devido às
etiologias multifatoriais que concorrem para o estabelecimento das lesões
(Balbi & Ramadinha, 1994).
A doença não tem predileção por sexo ou estação
do ano, contudo, os cães de orelhas longas, especialmente spaniels,
poodles, kerry blue terriers, labrador retrivier e raças com abundância
de pêlos no conduto auditivo são mais acometidos (Kirk, Muller
& Scott, 1985).
As inflamações precoces caracterizam-se por eritema e tumefação
do epitélio de revestimento; a pele torna-se facilmente traumatizada
ou ulcerada e secundariamente infectada, com surgimento de exsudato purulento
ou hemorrágico. Exsudato aderente seroso e castanho claro é
característico de infecções esta-filocócicas ou
estreptocócicas, e exsudato amarelo é característico
de infecções por bactérias Gram-negativas como Proteus
spp., Pseudomas spp. ou Escherichia coli. Na presença de levedura,
o exsudato fica aderente, seroso e castanho (Etinger et al., 1992).
Os microrganismos comumente isolados do conduto auditivo de cães são
o Staphylococcus aureus, S. intermedius, Mal-assezia pachy-dermatis (Ettinger
et al., 1992; Kiss et al., 1997; Guedeja-Marron et al., 1998). Aqueles isolados
de ouvidos apresentando otite externa incluem os dois já citados, além
de Proteus spp. e Pseudomonas spp. e especialmente nas infecções
crônicas são relatados os Streptococcus b-hemolíticos,
Escherichia coli e Bacillus spp. Em menor freqüência está
o Streptococcus spp. (Bornard, 1992; Staroniewicz et al., 1995). Em aproximadamente
30% dos casos de otite, mais de um microrganismo é isolado (Kirk, Muller
& Scott, 1985).
Ksiazek & Wawrykowicz (1995) encontraram em 84,5% de amostras positivas
ao exame microbiológico, 26,4% de infecção bacteriana,
19,9% de infecção fúngica e 38,2% de infecções
mistas (bactérias + fungos). Goulart (1997) observou que em 71,8% dos
casos de otite externa foi isolada apenas uma espécie bacteriana, enquanto
que 28,2% dos casos apresentavam dois ou mais agentes envolvidos.
Leite et al. (1997) pesquisaram a flora bacteriana de 50 cães com otite
externa sintomática e as bactérias isoladas foram: Staphylococcus
spp. (38%), Streptococcus spp. (20%), Bacillus spp. (18%) e Gram-negativos
(7%).
No Rio Grande do Sul, Fernandes & Gomes (1979) mostraram o envolvimento
de Staphylococcus spp. em 23,3% das otites de cães, seguido por Pseudomonas
spp. como agente de 22,7% dos casos e Ptyrosporum canis em 10,2% das otites.
Segundo Carter (1996), a levedura Pityrosporum canis tem sido isolada tanto
de ouvidos normais quanto otíticos.
Blanco et al. (1996) isolaram 51% de levedura em cães com otite externa
e ressaltaram sua importância na patogenicidade de otites crônicas
em cães.
As otites causadas por Candida sp. e Aspergillus sp. são raras, porém
o Pityrosporum canis é mais freqüente nas otites em cães
(Corrêa & Corrêa, 1992).
A seleção de medicamentos otológicos específicos
tem como base o agente etiológico causador da otite externa, o estado
do tímpano e a resposta orgânica ao processo nosológico
(Guene et al., 1990). Antibióticos de uso tópico são
mais eficazes (Guedeja-Marron et al., 1998).
O objetivo desse estudo foi identificar os agentes bacterianos e fúngicos
envolvidos na otite externa de cães procedentes da região Metropolitana
do recife, e avaliar a eficácia do Otomax* no tratamento desta patologia.
MATERIAL E MÉTODOS
O estudo foi conduzido
no período de agosto de 1998 a maio de 1999. Foram utilizados 52 cães,
machos e fêmeas de idades e raças variadas, com diagnóstico
clínico de otite externa, totalizando 80 ouvidos, e procedentes de
diferentes localidades da Região Metropolitana de Recife. O exame clínico
foi realizado de acordo com Kirk, Muller & Scott (1985), utilizando-se
o otoscópio, anotando-se a história e realizando-se posteriormente
o exame físico da orelha.
A secreção do conduto auditivo foi obtida mediante utilização
de swabs estéreis, após prévia limpeza do
pavilhão auricular com solução de éter etílico.
Os exames citológicos da secreção foram realizados em
esfregaços em lâminas coradas pela técnica Gram, observados
em microscopia de imersão, anotando-se o número de leveduras
por campo examinado, além da presença de bactérias Gram-positivas
e negativas. Foi observada também a presença de leucócitos
com modificações degenerativas ou fagocitando bactérias.
Considerou-se positivo para Pityrosporum canis contagem acima de 10 células
por campo, em objetiva de 100x, além do isolamento em cultura.
A secreção otológica foi cultivada em ágar base
enriquecido com 10% de sangue de ovino e ágar Levine. As placas foram
incubadas a 37o C, efetuando-se as leituras com 24 e 48 horas, anotando-se
os aspectos de crescimento das colônias. Realizou-se a técnica
do Gram para todas as colônias isoladas.
Para classificação presuntiva dos Staphylococcus spp., utilizaram-se
as provas de catalase, coagulase, produção de hemólise
em ágar sangue, pigmentação das colônias, utilização
de carboidratos (glicose, manitol e maltose) e DNAse. Para classificação
das enterobactérias utilizou-se as provas bioquímicas de citrato,
lisina, ágar tríplice ferro açúcar (TSL), vermelho
de metila (VM), Voges Proskauer (VP), indol, uréia e motilidade, segundo
Carter (1979).
A amostra de Candida sp. foi classificada através da morfologia celular
à técnica do Gram, além de provas de fermentação
de glicose e formação de clamidosporos e tubos germinativos.
Após a identificação bacteriana, as colônias foram
repicadas para o caldo infuso cérebro coração (BHI),
incubadas a 37o C e transferidas com swab estéril para
placas de Petri, contendo ágar Müler Hinton, para avaliar a sensibilidade
bacteriana in vitro, frente a diferentes drogas antimicrobianas (gentamicina,
amoxilina, kana-micina, carbenicilina, florfenicol, cloranfenicol, penicilina,
norflo-xacina, amicacina, lincomicina, cefalexina, neomicina e polimixina
B). A leitura foi realizada 24 horas após a incubação
das placas a 37ºC, medindo-se os halos de inibição e comparando-os
com tabelas fornecidas pelos fabricantes dos discos de antibióticos.
A avaliação da eficácia do tratamento foi realizada nos
ambulatórios do Hospital Veterinário da Universidade Federal
Rural de Pernambuco (UFRPE) e consistiu de quatro etapas: identificação
dos agentes etiológicos (bacterianos e/ou fúngicos) isolados
em culturas da secreção otológica, comprovação
da sensibilidade bacteriana in vitro à gentamicina e tratamento tópico
das lesões, utilizando o Sulfato de Gentamicina associado ao Valerato
de Betametasona e Clotrimazol (Otomax*) na posologia indicada pelo laboratório
fabricante. O produto foi usado em cães com otite fúngica, bacteriana
e naquelas causadas pelas associações de bactérias e
bactérias e fungos. A etapa final consistiu em nova avaliação
clínica após o término do tratamento, sendo considerados
curados aqueles animais que não apresentarem alterações
detectadas ao exame.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Com relação
aos resultados obtidos no exame microbiológico de secreção
otológica de cães com otite, verificou-se que Pityrosporum canis
foi um dos agentes mais freqüentemente observados (Tabela 1). Os dados
obtidos neste estudo estão de acordo com Ettinger et al. (1992) e Corrêa
& Corrêa (1992), que se referiram ao agente como sendo o mais comum
nas otites em cães.
Esta observação torna cada vez mais freqüente a utilização
de exames laboratoriais que diferenciam as infecções fúngicas
daquelas causadas por bactérias, corroborando com as afirmações
feitas por Greene et al. (1993) quanto à seleção de medicamentos
específicos para tratamento da otite externa, relacionado ao agente
isolado, e Corrêa & Corrêa (1992) que relataram os insucessos
terapêuticos que ocorreram nas otites de cães quando não
se empregam a cultura e antibiograma, e se utilizam de antibióticos
que não têm efeito terapêutico em fungos.
O emprego do exame citológico da secreção otológica
através da microscopia direta em lâminas coradas pelo método
de Gram mostrou-se um método simples, rápido eficaz para se
ter uma avaliação precoce do agente envolvido, até que
o exame microbiológico possa ser realizado. Neste estudo, este tipo
de exame mostrou-se bastante satisfatório no diagnóstico de
leveduras de gênero Pityrosporum canis, Candida albicans, além
da presença de leucócitos degenerados ou fagocitando bactérias
Gram-positivas e Gram-negativas. Com relação aos agentes bacterianos
isolados (Tabela 1), observa-se que o gênero Staphylococcus foi isolado
com maior freqüência (27,72%), concordando com as citações
feitas por Leite et al. (1997), Fernandes & Gomes (1979), Corrêa
& Corrêa (1992), Ettinger et al. (1992) e Goulart et al. (1997),
variando apenas as freqüências das espécies do gênero.
O Streptococcus spp. foi isolado em apenas 3,96% das amostras, representando
um percentual relativamente baixo, se comparado àqueles obtidos por
Corrêa & Corrêa (1992) e Goulart et al. (1997). Contudo está
próximo ao índice relatado por Ettinger et al. (1992).
Os microrganismos Gram-negativos mais isolados foram Pseudimonas spp. (13,86%)
e Proteus spp. (7,92%) (Tabela 1). Em relação ao primeiro, foi
citado como o Gram-negativo mais isolado por Corrêa & Corrêa
(1992), Ettinger et al. (1992), Fernandes & Gomes (1979), enquanto que
Goulart et al. (1997) citaram este gênero como o segundo Gram-negativo
mais isolado. Com relação à sensibilidade antimicrobiana
in vitro, observou-se que 100% das amostras de Staphylococcus spp. apresentaram
sensibilidade à gentamicina e cefalexina, 75% mostraram-se sensíveis
ao cloranfenicol e 62,5% à ampicilina.
Fazendo-se uma avaliação geral das bactérias envolvidas
e da sensibilidade aos diferentes antibióticos, observou-se que a gentamicina
foi a droga que apresentou melhores resultados (96,48%) tanto para amostras
Gram-positivas quanto para Gram-negativas, sendo uma das alternativas de tratamento
quando não se pode realizar o exame microbiológico e o antibiograma.
Um achado relevante neste estudo foi a associação de agentes
bacterianos e bacterianos e fúngicos (Tabela 2), como relatado por
Kirk, Muller & Scott (1985), Ettinger et al. (1992) e Goulart et al. (1997).
Estas associações ocorreram em 31,68% do total de 80 ouvidos
com otites estudados. Esta percentagem é similar àquela citada
por Goulart et al. (1997). Associações de diferentes tipos de
bactérias em 34,37% dos casos de otite e de bactérias com leveduras
foram observadas em 65,62% dos casos. Esta observação é
importante no que se refere ao tratamento das otites caninas e mais uma vez
reforça a utilização de exames microbiológicos
que confirmem estas possíveis associações, e que favoreçam
um tratamento adequado e com menor índice de recidivas.
Neste estudo, teve-se a oportunidade de acompanhar quinze cães tratados
com Otomax* que retornaram após o tratamento para novo exame clínico.
Todos os animais mostraram resposta satisfatória, demonstrando eficácia
de 100% do produto na cura clínica. Estima-se que um maior número
de animais possam ter apresentado resultados semelhantes, contudo a falta
de retorno ao término do tratamento, impossibilitou que estes fossem
incluídos neste estudo, que aumentaria ainda mais a freqüência
observada dos cães com cura das lesões.
Em decorrência da diversidade de agentes etiológicos envolvidos
em otites de cães, constatada neste estudo, a utilização
de exames microbiológicos e testes de sensibilidade antimicrobiana
in vitro são medidas indicadas no tratamento. Contudo quando esse procedimento
não for possível, a utilização do Otomax* mostrou-se
bastante satisfatória no tratamento desses animais.
CONCLUSÃO
Conclui-se que
os agentes mais freqüentemente isolados da secreção otológica
são o Staphylococcus spp. (27,72%) e o Ptyrosporum canis (22,77%),
além de associações entre bactérias (34,37%) e
bactérias e fungos (65,62%). A utilização do Otomax*
no tratamento de otite externa de cães causada por bactérias,
fungos ou associações destes, mostrou eficácia de 100%.
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1 Médico-veterinário,
PhD, Professor Adjunto do Departamento de
Medicina Veterinária da Universidade Federal Rural de Pernambuco, Recife,
PE, BRASIL.
2 Médico-veterinário, Recife, PE, BRASIL.
3 Médico-veterinário, MSc., Professor Assistente do
Departamento de Medicina Veterinária da UFRPE, Recife, PE, BRASIL
Artigo publicado na revistaVet News, publicação do laboratório Schering-Plough www.schering-plough.com.br
Autorização
para publicação no Redevet: Schering-Plough Veterinária