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Cerco à leishmaniose
A leishmaniose, que pode causar lesões na pele e atingir órgãos
como o fígado e o baço em suas duas formas, é a segunda
causa de morte entre as doenças parasitárias (só perde
para a malária). A cada ano, estima-se que ocorram cerca de dois milhões
de casos novos no mundo. No Brasil, em 1999 foram registrados 30.550 casos,
a maioria na Região Norte. A doença acomete principalmente as
populações rurais, mas está em fase de franca urbanização.
Para combater e controlar a leishmaniose, a Fiocruz vem atuando em várias frentes de pesquisa, que incluem estudos sobre o parasita e o vetor e também uma nova vacina contra essa doença que está presente em todos os continentes, exceto na Antártida e na Oceania, e em todos os estados brasileiros.
O pesquisador
do Laboratório de Imunidade Celular e Humoral em Protozooses, do Departamento
de Imunologia do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), Sérgio Mendonça,
está tentando desenvolver vacinas recombinantes contra a leishmaniose
utilizando genes obtidos de uma cepa de Leishmania amazonensis componente
de uma vacina de 1a geração denominada Leishvacin, desenvolvida
por cientistas mineiros a partir de parasitas mortos, com eficácia
estimada em 50%. Três tipos de protótipos vacinais estão
sendo desenvolvidos a partir de três genes deste protozoário.
O primeiro tipo compreende proteínas recombinantes produzidas em Escherichia coli, através da utilização de um vetor (plasmídeo) que expressa o gene de Leishmania no interior da bactéria; o segundo tipo é a utilização do bacilo Calmette-Guérin (BCG) transformado com gene de Leishmania; e o último é representado por plasmídeos de expressão das proteínas em células animais (ou vacinas de DNA). A eficácia das vacinas deverá ser testada em camundongos (Mus musculus) para a avaliação da proteção e da resposta imune. Paralelamente, ensaios in vitro com células de pacientes e de indivíduos imunizados com a vacina de primeira geração serão realizados com as proteínas recombinantes, visando descobrir as características das respostas de células humanas a esses antígenos.
As vacinas de 2ª geração utilizam a tecnologia de DNA recombinante (engenharia genética) para a produção de preparações estáveis e com composição química definida e padronizada. Seu desenvolvimento também se baseia na identificação prévia de proteínas do agente infeccioso que estimulam uma resposta imune protetora. Já as vacinas de 1ª geração são geralmente compostas de parasitas, vírus ou bactérias mortos ou atenuados ou frações (misturas quimicamente complexas) de antígenos destes agentes, daí a sua difícil padronização.
Um inseticida natural para combater o vetor da doença
"Com a pesquisa ainda em andamento, podemos dizer que os antígenos são capazes de induzir respostas em células humanas. Temos de fazer o detalhamento dessa resposta identificando as células envolvidas e as citocinas (mediadores químicos da resposta imune)", afirma Mendonça, acrescentando que uma futura vacina poderá agir tanto contra a leishmaniose tegumentar (que causa lesões na pele) quanto a visceral (ou calazar, que atinge órgãos como o fígado e o baço e é mais letal). O estudo é desenvolvido em parceria com o Laboratório de Tecnologia Recombinante (Later) de Bio-Manguinhos (Fiocruz), especializado em biologia molecular.
A Fiocruz também pesquisa, através do Departamento de Entomologia do IOC, um biolarvicida contra o transmissor da leishmaniose visceral feito de uma substância encontrada numa árvore tropical nativa das regiões Sul e Sudeste do Brasil. Depois de diversos testes, os pesquisadores descobriram que a substância inibe o crescimento das larvas do flebótomo Lutzomyia longipalpis. Oitenta por cento das larvas alimentadas com a substância morreram antes do terceiro estágio e não chegaram à fase adulta.
A leishmaniose visceral se caracteriza pela infecção do sistema retículo-endotelial, localizado sobretudo no baço, fígado e medula óssea, provocando aumento das vísceras. Enquanto que a tegumentar manifesta-se como infecção cutânea ou cutânea-mucosa, localizada nas células do sistema retículo-endotelial, de tegumento.
René Rachou descobre inimigo natural do transmissor
O Laboratório de Entomologia Médica do Centro de Pesquisa René Rachou (CPqRR), unidade da Fiocruz em Belo Horizonte, acaba de descobrir um nematóide (verme intestinal com menos de um milímetro de comprimento) capaz de matar os flebotomíneos transmissores da leishmaniose visceral antes que eles se reproduzam. Segundo os pesquisadores, o verme poderia ser utilizado como controle biológico do vetor da leishmaniose em áreas endêmicas.
A equipe do biólogo Paulo Pimenta, que capturava os insetos para pesquisas na Gruta da Lapinha, no município de Lagoa Santa, notou, por acaso, que muitos morriam antes de chegar ao laboratório e que muitos recém-chegados não se alimentavam, apesar de terem o abdômen estufado. Primeiramente suspeitou-se da alimentação, que poderia estar contaminada. Mas depois de análises mais apuradas foram detectados larvas e ovos de nematóides instalados no intestino de machos e fêmeas.
É a primeira vez que se descreve, no Brasil, um nematóide parasita de flebotomíneos: o verme, que ainda não tem seu nome de espécie, é membro da ordem Rhabditida e da família Steinernematidae. O ciclo de vida é simultâneo ao do L. longipalpis e a infecção ocorre somente entre os insetos, sem transmissor intermediário, o que exclui o risco de contaminação no homem.
A finalidade do estudo é infectar in vitro flebotomínios capturados de regiões endêmicas e devolvê-los ao campo para transmitirem o parasita aos demais vetores. No entanto, ainda serão necessários testes em campo para se confirmar essa teoria. O desafio é encontrar o local adequado. Outra tarefa é descobrir como ocorre a contaminação do inseto. Supõe-se que a larva do L. longipalpis se contamina ao alimentar-se de restos do corpo de flebotomíneos contaminados ou quando os vermes penetram na larva.
Pesquisadores
do René Rachou também desenvolveram um novo modelo de capacitação
de serviços de saúde para o diagnóstico e tratamento
das leishmanioses, que está sendo aplicado na região metropolitana
de Belo Horizonte (MG), realizando o treinamento de recursos humanos, a descentralização
de laboratórios de referência e a implantação de
uma rede de informação. Um dos estudos avalia o conhecimento
da população e a capacidade informativa dos folhetos existentes
sobre a doença e propõe um modelo de cartilha.
Texto extraído da Revista Fiocruz www.fiocruz.br