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6) DISPLASIA COXOFEMURAL

É o desenvolvimento ou crescimento anormal da articulação coxofemural, em geral bilateralmente. Ela se manifesta por vários graus de frouxidão dos tecidos moles ao redor da articulação, instabilidade, malformação da cabeça femural e acetábulo, e ósteo-artrose.

A displasia coxofemural é o distúrbio mais prevalente da articulação canina e a mais importante causa de osteoartite nessa articulação.

A instabilidade articular ocorre à medida que o desenvolvimento e a maturação se atrasam com relação à taxa de crescimento esquelético.

Os primeiros 60 dias de vida correspondem ao período mais crítico para o desenvolvimento das estruturas de tecido mole. Quando o estresse e o peso exercidos na articulação coxofemural excedem os limites de força dos tecidos moles de sustentação, ocorre instabilidade articular.

A afecção raramente acomete cães com peso abaixo de 11 a 12 Kg, quando adultos, embora já tenham relatos dessa patologia em gatos e cães "toys".

ETIOLOGIA E PATOGÊNESE

Muitas observações tem sido feitas em relação à etiologia desta complexa afecção:

a. Fatores ambientais são superpostos à susceptibilidade genética do indivíduo.

b. Os genes não afetam primeiramente o esqueleto, mas sim a cartilagem, tecidos conjuntivos e músculos da região coxofemural.

c. A explicação biofísica da afecção é a que representa disparidade entre massa muscular e crescimento rápido e desproporcional do esqueleto.

d. O desenvolvimento anormal é induzido quando o acetábulo e cabeça femural se distanciam e iniciam uma série de alterações que finalmente são reconhecidas como displasia coxofemural.

e. As alterações ósseas são resultados da falha do tecido conjuntivo em manter a congruência entre as superfícies articulares da cabeça femural e o acetábulo.

f. A afecção é prevenida se a congruência da articulação coxofemural for mantida até que a ossificação torne o acetábulo menos plástico e que os tecidos moles ao redor se tornem fortes o suficiente para impedir a subluxação da cabeça femural. Sob circunstâncias normais a força e a ossificação progridem suficientemente para prevenir a afecção até os seis meses de idade.

g. Cães com grande massa muscular pélvica tem articulações femurais mais normais do que aquelas com menor massa muscular pélvica.

h. A ocorrência, gravidade, e incidência da displasia coxofemural pode ser diminuída pela redução da taxa de crescimento dos filhotes.

i. A ocorrência de displasia pode ser reduzida, mas não eliminada pela reprodução somente de cães com articulações coxofemurais radiograficamente normais. Apenas 7% dos filhotes serão normais se ambos os pais forem displásicos.

SINAIS CLÍNICOS

Variam de acordo com a idade do animal. Podem aparecer em cães jovens entre 4 e 12 meses de idade ou em animais acima de 15 meses de idade com afecção crônica.

A dor aguda é um dos principais sintomas. Dificuldade em se levantar, músculos das áreas pélvicas e das coxas são fracamente desenvolvidos. Andar como "coelho".

O súbito início dos sinais é causado pela ocorrência de microfraturas nas bordas acetabulares.

A maioria dos cães displásicos entre 12 e 14 meses de idade andam e correm livremente e não tem dor significante, apesar da aparência radiográfica da articulação. A maioria exibe padrão de locomoção como "coelho" quando correm.

Cães mais velhos apresentam sintomas diferentes. A claudicação pode ser unilateral, mas geralmente é bilateral.

Existe claudicação após exercício vigoroso ou prolongado, um modo de locomoção cambaleante, e freqüentemente crepitação e movimentação restrita da articulação.

O cão geralmente prefere sentar-se a permanecer em estação e levanta-se lentamente com grande dificuldade.

Os músculos pélvicos atrofiam-se, ao mesmo tempo os músculos do ombro hipertrofiam em virtude do deslocamento cranial do peso e uso maior dos membros torácicos.

DIAGNÓSTICO

Baseia-se o diagnóstico na anamnese, no exame físico e na avaliação radiográfica das articulações coxofemurais.

Exame físico:

· Claudicação do membro posterior

· Dor articular

· Sinal de Ortolani: Com uma mão colocada sobre o joelho do membro afetado, aplique pressão dorsal no fêmur enquanto se move o membro de uma posição abduzida para aduzida. O estalido ouvido ou sentido à medida que a cabeça femural entra ou sai do acetábulo consiste um sinal de Ortolani positivo e indicação de frouxidão articular. A palpação da frouxidão da articulação coxofemural em animais adultos não é geralmente confiável, devido à fibrose na cápsula articular e arrasamento do acetábulo, o exame radiográfico e ortopédico geral são mais importantes nesta situação.

· O diagnóstico definitivo tem que ser baseado em radiografias

Raio X:

· Nos casos precoces, o posicionamento apropriado da vista ventrodorsal é extremamente crítico; nos estágios avançados as alterações são pronunciadas e o posicionamento torna-se menos importante.

· As alterações radiográficas associadas à displasia coxofemural variam de subluxação da cabeça femural a artropatia grave, com alterações acentuadas na arquitetura da cabeça femural e acetabular.

TRATAMENTO

A. Terapia Conservadora

Somente utilizada em animais suavemente afetados e naqueles com episódio inicial de claudicação:

· Restrinja a atividade para permitir que a resposta inflamatória dentro da articulação diminua;

· Administre medicação para aliviar a dor e reduzir a inflamação associada a artropatia degenerativa. A aspirina tamponada e algumas vezes adequada ( 20 mg/Kg, a cada 12 horas);

· A fenilbutazona é útil e parece ser mais eficaz do que a aspirina em alguns cães. Para uso crônico, dosagem terapêutica 1 mg/Kg, dividida em 2 ou 3 doses diárias;

· Os corticosteróides aceleram as mudanças degenerativas na articulação e devem ser evitados para uso crônico;

· Ácido meclofenâmica tem agido bem em cães que o toleram sem irritação gástrica ou intestinal;

· Hannam e associados demonstraram efeito condroprotetor pelo glicosaminoglicano polissulfatado, após meniscectomia experimental. A dosagem de 1 mg/Kg intramuscular a cada 4 dias por 6 doses, freqüentemente produz melhora clínica. Esta dose é então repetida até o efeito, geralmente a cada 4 ou 6 semanas.

TRATAMENTO CIRÚRGICO

Existem várias técnicas efetivas para o tratamento da displasia coxofemural:

a. Osteotomia Pélvica Tripla:

Ideal para casos onde o animal apresenta o acetábulo recobrindo um pouco a cabeça femural e não ocorrem sinais de artropatia degenerativa na articulação coxofemural, a maioria dos cães com esses sinais possui entre 5 a 13 meses de idade.

Objetivo:

· Aumentar a intensidade de recobrimento acetabular sobre a cabeça femural através de giro da porção acetabular pélvica;

· Manter a arquitetura e a congruência normais da cabeça femural e do acetábulo;

· Impedir o desenvolvimento de artropatia degenerativa.

Após a cirurgia restrinja a atividade por 8 semanas.

a. Artroplastia de Excisão da Cabeça e Colo Femurais

Ideal para cães de todas as idades, principalmente cães que pesam menos do que 18 Kg.

Objetivo

· Remover a cabeça e o colo femurais;

· Eliminar os pontos de contato dolorosos na articulação;

· Permitir que uma articulação de tecido fibroso substitua a articulação de esfera e encaixe

O membro operado pode ser usado de 3 a 7 dias após a cirurgia. Em média leva-se 2 a 3 meses para que o membro atinja o seu nível funcional pós operatório definitivo. Em alguns animais a andadura ficará indistingüível do normal; em outros encontrar-se-á uma anormalidade óbvia da andadura.

b.Miectomia Pectínea

Pode-se fazer essa técnica em cães de todas as idades.

Esse procedimento não altera a progressão ou a intensidade das alterações na articulação causada por uma displasia coxofemural, mas pode atenuar uma dor articular.

Objetivo

· Remover todo o ventre do músculo pectíneo bilateral;

· Alterar a tração muscular na articulação coxofemural, mudando consequentemente os pontos de contato dentro da articulação coxofemural;

Restrinja as atividades por 2 semanas.

Em alguns cães a andadura melhora notoriamente e parece haver um alívio de dor acentuado.

c.Osteotomia Intertrocantérica

Ideal para pacientes com elevado aumento do ângulo de anteversão e/ou de inclinação. Pacientes com alterações degenerativas mínimas na articulação.

Idade próxima a maturidade esquelética ( 6 a 8 meses).

Objetivos

· Reduzir os ângulos de inclinação e anteversão

· Posicionar a cabeça femural com mais profundidade na taça acetabular.

Restrinja a atividade por 8 semanas.

d.Substituição Coxofemural Total

Usada quando:

· O animal tem no mínimo 9 meses;

· O peso mínimo do animal é de 13 a 18 Kg;

· Quando ocorrer afecção incapacitante coxofemural sem nenhuma outra patologia sistêmica ou do membro posterior.

Objetivo

· Substituir a articulação coxofemural degenerada por uma taça de polietileno de alta densidade e uma prótese femural de liga de titânio ou de cobalto-cromo;

· Proporcionar uma articulação mecanicamente sadia.

Restrinja a atividade e a andadura por 2 meses. Mais de 95% dos cães tratados com essa técnica apresentam função satisfatória.

7) OSTEOCONDROSE

É observada em animais jovens e de crescimento rápido de muitas espécies, geralmente acomete cães de porte médio, grande e gigante. Ela se caracteriza por um defeito na ossificação endocondral, ocasionada por um distúrbio da diferenciação celular no crescimento de placas metafisárias e cartilagem articular. Caso esta condição resulte na dissecção de retalhos ou cartilagem articular com algumas alterações articulares inflamatórias, ela pode ser chamada de osteocondrose dissecante.

Essa patologia é mais comumente descrita na fase caudal da cabeça umeral, no côndilo umeral medial, nos côndilos femurais medial e lateral e nas cristas trocleares astragalares.

Os distúrbios de ossificação endocondral na placa de crescimento metafisário podem resultar em espessamento focal da placa de crescimento ( retenção dos núcleos cartilaginosos endocondrais da ulna distal ), ninhos de retenção cartilaginosa ( epífises femurais), retardo fisário ( encurvamento radial e deslizamento das placas de crescimento metafisários ; não-união do processo ancôneo; calcâneo proximal. No cotovelo existem 3 distúrbios que se relacionam à osteocondrose:

a) Não-união do processo ancôneo;

b) Fragmentação do processo coronóide;

c) Osteocondrite dissecante

8) NÃO-UNIÃO DO PROCESSO ANCÔNEO ( NPA )

Detectada geralmente por volta dos 6 meses de idade, a não-união do processo ancôneo com a ulna ocorre inicialmente na face distal fisária e depois progride proximalmente ao longo da placa de crescimento.

A ossificação endocondral incompleta pode resultar em focos de retenção cartilaginosa dentro de uma fise fechada; tais ninhos de retenção podem mimetizar uma NPA.

Essa não-união resulta em irritação de corpo estranho, instabilidade do cotovelo suave a moderada e subsequente produção osteoartrítica. Se houver ligação entre o processo ancôneo e cápsulas periostais, o osso pode permanecer viável e capaz de formação de calo endosteal.

SINAIS CLÍNICOS

· Em cães imaturos ( menos de 1 ano ): Claudicação, que geralmente piora com exercício

DIAGNÓSTICO

· Raio X

TRATAMENTO

Quando não há sinais de ligação entre o processo e a cápsula periosteal deve-se partir para procedimento cirúrgico, removendo o "intruso" articular, no entanto permanecerão a incongruência articular e a subsequente progressão artrítica.

Nos casos onde exista essa ligação a reconstrução com parafuso, tentando-se uma união do processo pode ser tentada.

PROGNÓSTICO

O prognóstico é excelente se a reconstrução cirúrgica obtiver sucesso.

A NPA em cães adultos é mais difícil de ser vista.

9) FRAGMENTAÇÃO DO PROCESSO CORONÓIDE E OSTEOCONDROSE DO COTOVELO

Ambas afetam o compartimento articular medial do cotovelo.

A congruência articular depende do crescimento uniforme dos componentes ósseos umeral, radial e ulnar.

Um defeito na ossificação endocondral, carga articular desigual devida a crescimento assimétrico do rádio e da ulna ou ambos podem causar dois problemas:

· Intruso articular ( fragmentação do processo coronóide e osteocondrose dissecante);

· Incongruência das superfícies articulares.

Nos cães jovens, a idade no fechamento das placas de crescimento ao redor do cotovelo varia:

A. Processo ancôneo – 5 a 6 meses;

B. Rádio proximal – 8 a 9 meses;

C. Olécrano – 8 a 9 meses;

D. Côndilos umerais distais – 7 a 8 meses.

DIAGNÓSTICO

O diagnóstico clínico é freqüentemente feito antes do fechamento da placa de crescimento; portanto evite abordagens cirúrgicas que exijam osteotomias.

O raio X é indispensável para o diagnóstico definitivo, encontram-se :

1. Achados típicos da fragmentação do processo coronóide: Fragmento no compartimento articular medial ( vista ântero-posterior); alargamento do espaço articular umero-radial ( vista ântero-posterior )

2. Achados típicos da osteocondrose dissecante: Flape no compartimento articular umeral medial (vista ântero-posterior ); Leito de flape no côndilo umeral medial ( vista ântero-posterior ); Achatamento e alongamento da superfície articular do Côndilo medial ( vista ântero-posterior )

3. Achados comuns da osteocondrose dissecante e fragmentação do processo coronóide: Imprecisão e proliferação periosteal do processo ancôneo dorsal ( vista lateral flexionada ) e do compartimento articular medial ( vista craniocaudal ); Aumento da esclerose da interface radioulnar ( vista lateral ).

Freqüentemente só se faz um diagnóstico preciso da osteocondrose dissecante ou fragmentação do processo coronóide durante um cirurgia.

Pode-se utilizar uma abordagem cirúrgica semelhante para osteocondrose e fragmentação..

TRATAMENTO CIRÚRGICO

Objetivo:

· Remover o fragmento e/ou o flape de lesão enquanto se minimiza o traumatismo na articulação jovem e em crescimento;

· Curetar o leito do flape ( ou a lesão de contato leve ) para estimular neocondrogênese.

PROGNÓSTICO

O grau de incongruência do cotovelo, a artrite no momento da cirurgia, o tamanho do flape / fragmento e a técnica cirúrgica determinam o resultado.

É infundado esperar que os cães com artrite avançada e lesões graves, se beneficiem significativamente de uma cirurgia.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

· Brinker, Piermattei e Flo: Manual de Ortopedia e Tratamento das Fraturas dos Pequenos Animais, 3ª edição, 1999, Editora Manole;

· Bichard, Stephen I.: Manual Saunders: Clínica de Pequenos Animais/ Stephen J. Bichard, Robert G. Sherding, São Paulo, 1998, Editora Rocca.

Levantamento bibliográfico:

Dra. Lucine Guerra Janiak, CRMV: 10.969-SP