5. CASOS NA LITERATURA
5.1 Proestro prolongado em cadelas com X monossomia cromossômica (77,X0)
(Löfstead, RM et al, 1992)
Uma cadela de 9 meses de idade da raça Esquimó americano miniatura com proestro persistente tinha o seguinte histórico: aos 7,5 meses de idade a cadela começou a apresentar edema vulvar com descarga proestral. Depois de 42 e 50 dias, a cadela foi tratada com 500 UI de gonadotrofina coriônica humana em cada dia para induzir ovulação, presumindo que ela tivesse cisto ovariano. O tratamento não foi efetivo, 59 dias depois do início do proestro, a vulva continuava inchada e a citologia vaginal era consistente com o proestro. Nesse momento, a concentração de progesterona sérica era 0,1 ng/ml e a concentração de estrógeno sérico total era 241pg/ml. A concentração estrogênica era compatível com proestro e a baixa concentração de progesterona evidenciava que a cadela não tinha ovulado ainda. Durante o período do proestro prolongado, mas especialmente no seu início, a cadela era atrativa para os machos.
Esses machos freqüentemente tentavam montar nela, porém a cadela deitava passivamente e não permitia a monta.
Dois meses após o início do proestro, a cadela recebeu outras duas injeções de gonadotrofina coriônica humana (cada 150UI, IM) ,sendo que entre as injeções houve um intervalo de 5 dias. Após duas semanas o esfregaço vaginal indicou que a condição dela não havia mudado. Ela foi então tratada com 1mg de FSH IM 12/12horas por 5 dias seguido de 10μg de GnRH IM no sexto dia. Isto foi feito porque o FSH tinha sido relatado como indutor de sítios de receptor para LH nas células granulosas do folículo ovariano. Contudo, análises do esfregaço vaginal feitas 3 e 18 dias depois (3 a 3,5 meses após o início do proestro) indicaram que esse tratamento também tinha falhado na indução da ovulação. Nesse momento, a concentração total de tiroxina sérica era normal. O teste de estimulação com hormônio estimulador da tireóide não foi feito.
Após 4,5 meses de sinais contínuos de proestro, consistindo em atração pelos machos, edema vulvar, descarga vulvar hemorrágica intermitente, e a citologia vaginal indicava normalmente mais de 80% de células superficiais. Um exame físico não revelou anormalidades exceto pela pelagem escassa.
De acordo com o proprietário, a cadela era pequena para a idade dela. Às seis semanas ela pesava 1,6 Kg, considerando que a média do peso de suas 5 irmãs era 2,7Kg. Na opinião do proprietário, a aparência facial da cadela era incomum, porque suas orelhas eram inseridas baixas na cabeça dela e eram muito afastadas e por isso apontavam para fora ao invés de para cima.
A vagina da cadela foi examinada usando um endoscópio flexível 9mm e esta foi encontrada sendo grosseiramente normal. A cérvix não pôde ser visualizada, mas isso é comum durante o proestro, especialmente quando um endoscópio com 9mm de diâmetro é usado numa cadela desse tamanho. Por base do comprimento do vestíbulo e da vagina dela (19cm), foi sugerido que não havia aplasia segmentar desta parte do trato reprodutivo. Nesse momento, a vulva da cadela estava aumentada e sua citologia vaginal era consistente com proestro atrasado. Devido à história incomum da cadela, a análise do cariótipo foi feita pelo sangue dela e o diagnóstico de 77,XO foi retornado.
Depois de 7,5 meses de proestro contínuo ela foi ovariohisterectomizada e o cariótipo do sangue e da pele foram examinados. Em 30 esfregaços de linfócitos e 30 esfregaços de fibroblasto da pele todas as células tinham cromossomo 77,XO. Além disso, em 500 neutrófilos examinados “drumsticks” não foram encontrados. Cadelas normais devem ter cariótipos 78,XX com aproximadamente 4% de “drumsticks”.
Um dia antes da ovariohisterectomia, essa cadela continuava com vulva inchada e a citologia vaginal era condizente com proestro. Uma baixa concentração de progesterona sérica (0,2 ng/ml) naquele dia indicou que ela não tinha ovulado. A concentração de testosterona sérica foi mensurada porque esta tinha sido encontrada baixa em outra cadela com XO monossomia, mas nessa cadela ela era normal com 0,04ng/ml. Com 1 semana após a ovariohisterectomia, a descarga hemorrágica cessou e o edema vulvar regrediu.
Os ovários eram aproximadamente 8x6x6 mm e no exame histológico não havia evidência de nenhum desenvolvimento folicular. Isso foi inesperado devido à persistência da aparência proestral e seu rápido desaparecimento depois da ovariohisterectomia. O epitélio germinal pareceu estar em um estado de degeneração. Não havia corpo lúteo ou corpo albicans. Contudo havia esferas ou cordões epiteliais observadas com grande abundância. Nas esferas mais largas havia células com nucléolo proeminente que tinham citoplasma vacuolizado. Estas eram parecidas com células em um corpo lúteo ativo e foi concluído que elas podem ter sido ativadas esteroidogenicamente.
Uma população grande de células parecidas com linfócitos também estava presente nessas esferas epiteliais o que sugeriu que uma resposta imune pode ter sido envolvida na degeneração do ovário.
As tubas uterinas pareceram estar bem desenvolvidas e eram revestidas por epitélio ciliado proeminente. O útero era grosseiramente normal, mas havia uma condição cística das glândulas uterinas. Isso era inesperado porque era conhecido que não havia estrutura luteal nos ovários e o útero não tinha sido exposto a altas concentrações prolongadas de progesterona. Isso indicou que o estrógeno pode ser importante na patogênese da hiperplasia cística endometrial, apesar do estrógeno sozinho ter mostrado ser incapaz de induzir cistos glandulares. Havia uma indicação de que essa cadela pode ter tido um estado de piometra anteriormente porque havia um acúmulo de granulócitos em uma parte do lúmem uterino.
Esse caso foi incomum por diversas razões. Primeiro 77,XO é raro em cães, pelo o que se sabe esse é o segundo caso relatado. Essa cadela no estado de proestro persistente não apresentou: hipertrofia clitorial, alta concentração sérica de testosterona, baixa concentração sérica de estradiol, aplasia na parte cranial de um corno uterino; no entanto ela apresentou: disgenesia gonadal, deformação facial e tamanho do corpo pequeno.
Dois anos após ter sido ovariohisterectomizada, foi encontrada sua concentração basal sérica de LH entre 10,4 e 13,7 ng/ml e sua concentração de FSH entre 1,005 e 2,004 pg/ml. Quando foi injetado 100μg de GnRH IM na cadela , sua concentração sérica de LH aumentou 5 vezes acima do valor padrão.
5.2 Indução do estro em cadelas com anestro normal e persistente usando gonadotrofina menopausal humana (hmg)
(Wanke, MM et al , 1997)
Resumo: A hMG foi administrada IM em 10 cadelas durante um anestro aparentemente normal (n=7) ou anestro persistente (n=3). Cada cão recebeu uma dose de 75UI de hMG (75UI LH, 75UI FSH; 1- 7 unidades/Kg) diariamente por 9 dias. Nove cadelas responderam com sinais óbvios de proestro entre 3 e 9 dias; entre elas, 3 tiveram um proestro fraco, 2 apresentaram estro normal e ovulação, mas falharam na concepção e 4 ficaram prenhes no ciclo induzido e geraram ninhadas normais após 72 a 85 dias do começo do tratamento (incluindo a cadela tratada em 24 meses depois do último estro). Em 2 casos, o tratamento resultou em ovulação seguida de 25 ou 34 meses de anestro puberal crônico, sendo que uma delas ficou prenhe. Os resultados sugerem que hMG pode ser uma útil preparação gonadotrófica para indução de estro em cães.
Introdução: As cadelas são animais monoéstricos, sendo que o anestro varia de 2 a 10 meses seguido de 2 meses de fase luteal de ciclo de prenhez ou não-prenhez. O intervalo interestro normal é entre 5 a 12 meses.
As razões clínicas para a indução de estro são: cadelas com anestro persistente e cadelas puberdade tardia.
Muitos protocolos de indução de estro com gonadotrofinas, pulsos de GnRH, injeção ou infusão de agonista de GnRH e agonista dopaminérgico têm sido relatados na indução do estro em anestros de cadelas. Em alguns casos os resultados não são satisfatórios para o uso clínico, enquanto que em outros casos a preparação de hormônio requerida não é permitida para uso veterinário em muitos países.
Material e Métodos:Foram utilizados 10 animais saudáveis em anestro de várias raças com peso entre 11 a 70 Kg. O dia do anestro foi determinado usando a história contada pelos proprietários. O anestro foi confirmado em cada cadela baseando-se no nível sérico de progesterona <1ng/ml determinado por ensaio imunoenzimático e ausência de células superficiais ou intermediárias no esfregaço vaginal .
Duas cadelas de 25 e 34 meses de idade nunca haviam exibido estro antes. As outras 8 cadelas estavam em estágios conhecidos depois do estro anterior; incluindo 7 cadelas anestro-normal, em cinco a oito meses aproximadamente depois do último estro, e uma cadela anestro persistente, com aproximadamente 24 meses depois do último estro.
Tratamento: Cada cadela recebeu diariamente uma injeção IM de hMG (75 UI de LH e 75 UI de FSH por 75 UI ampola). A droga liofilizada foi diluída em 3 ml de solução salina imediatamente antes da injeção.
Das 10 cadelas 7 receberam injeções diárias de 75 UI hMG por 9 dias. Em 2 cadelas o tratamento foi interrompido por 1 dia (dia 4 ou 5) e então continuado até a nona injeção. Em um caso, o tratamento foi interrompido depois de 7 dias devido à resposta antecipada de proestro da cadela.
O dia da primeira injeção de hMG foi considerado o dia 0 de tratamento.
Observação e Cruzamento: Durante o tratamento as cadelas foram examinadas diariamente, incluindo esfregaço vaginal e observações de edema vulvar, vaginoscopia e descargas serosanguinolentas.
Os esfregaços vaginais foram obtidos e classificados, tendo sido corados através do método tricrômico de Schorr. seguido de fixação com spray citológico comercial. Índices eosinofílicos também foram determinados.
As cadelas foram testadas para comportamento estral diariamente, começando quando o esfregaço vaginal apresentava ≥ 90% de células epiteliais superficiais. Os cruzamentos foram permitidos dias depois da observação do estro.
LH e Progesterona séricos: Com poucas exceções, as amostras de sangue foram obtidas 1 a 2 dias antes do tratamento, no primeiro dia do tratamento e em dois dias consecutivos durante o tratamento.
Nas cadelas que responderam com proestro, o sangue foi coletado de um a cinco dias de intervalo do médio-proestro (50% de cornificação) até o nível sérico de progesterona ser maior que 7,5 ng/ml baseado no nível de progesterona .
Em 2 cadelas as amostras foram colhidas diariamente enquanto que em outras duas as amostras foram colhidas a cada 3 a 4 dias durante a indução do proestro e estro.
A progesterona foi determinada por RIA em todas as amostras e o LH foi determinado nas amostras coletadas durante o período de crescimento ovulatório.
Para cada ciclo induzido, o dia de surgimento de LH pré-ovulatório foi determinado baseado nos picos de LH detectados pela análise de LH (n=3) ou por interpolação baseado no tempo de aumento inicial de progesterona (n=3), mas excluindo os dias que o LH não aumentou.
A ovulação foi considerada como ocorrida se a concentração de progesterona fosse ≥ 2ng/ml por ≥ 10 dias ou se a prenhez ocorresse.
Resultados: Das 10 cadelas 9 mostraram proestro, edema vulvar, descarga serosanguinolenta e aumento do número de células epiteliais no esfregaço vaginal entre 3 a 9 dias de tratamento. Três cadelas apresentaram edema vulvar e descarga serosanguinolenta pouco significativas durando somente 2 a 3 dias. Seis cadelas demonstraram forte resposta de proestro ( ≥ 90% de células superficiais no esfregaço e evidente comportamento estral ). A ovulação ocorreu durante um estro aparentemente normal. Dessas cadelas 4 ficaram prenhes e pariram ninhadas normais. A resposta inicial foi semelhante em 3 das 4 cadelas: o proestro começou no sexto ao décimo dia e durou 9 a 11 dias, o estro iniciou-se do décimo sexto ao vigésimo dia e durou 6 a 8 dias. A primeira elevação na progesterona ≥ 1 ng/ml e/ou pico de LH ocorreu do décimo quinto ao décimo nono dia.
As gestações foram normais e as cadelas deram filhotes nos dias 82, 83 e 85 dias após o início do tratamento.
Nas 4 cadelas que ficaram prenhas o proestro começou no terceiro dia e uma cornificação vaginal extensiva ocorreu no sexto dia. O tratamento foi interrompido após o sexto dia para evitar superestimulação ovariana. O primeiro crescimento de progesterona e o pico de LH ocorreram no sétimo dia. As cadelas foram inseminadas no nono e décimo segundo dia e um filhote foi removido por cesariana 71 dias após o começo do tratamento.
Cada uma das 4 gestações foi normal e resultaram em ninhadas de 1 a 13 filhotes cada. A média do tamanho da ninhada foi de 6,7 ± 2,1 filhotes. O intervalo proestro, estro, surgimento do LH e parto foram 6 ± 1, 16 ± 2, 14 ± 1 e 80 ± 3 dias do começo do tratamento respectivamente
Duas cadelas ovularam mas não ficaram prenhas. Em uma delas, o proestro e estro foram breves, mas a progesterona aumentou no décimo sexto dia e ficou elevada por ≥ 40 dias. A outra teve proestro e estro similar àquelas que ficaram prenhas, com tudo a duração de função luteal além de 10 dias não foi determinaram.
As cadelas de resposta fraca mostraram apenas pequenos acréscimos na porcentagem de células epiteliais cornificadas (15 a 20 %). As 6 cadelas restantes apresentaram > 90% de células superficiais pelo oitavo a décimo quinto dia e um índice máximo eosinofílico atingindo 53 97% no oitavo a vigésimo quinto dia.
Para cada cadela com esfregaço vaginal semelhante ao estro, oportunidades de cruzamento foram fornecidas cada 2 a 3 dias depois do começo do estro até o início do diestro.
Todas as 6 cadelas aceitaram monta natural e mostraram comportamento estral normal. Em cada uma das 6 cadelas a concentração de progesterona ficou elevada acima de 15ng/ml enquanto que não havia acréscimos detectáveis nas 4 cadelas que não ovularam.
Das 10 cadelas nove retornaram ao estro entre 1,5 a 12 meses após o tratamento. Nas 4 cadelas não-ovulatórias o próximo ciclo ocorreu 42 a 114 dias depois do início do tratamento. Das 6 cadelas que ovularam cinco tiveram o próximo ciclo entre 240 a 360 dias após o ciclo induzido.
A cadela que não havia exibido ciclo antes do tratamento não teve um segundo ciclo durante 600 dias de observação após o estro induzido.
A dosagem diária de hMG relativa para o peso corporal nas 6 cadelas que ovularam (4,1±2,2 UI/Kg) não diferiu (P>0,2) das 4 cadelas que não ovularam ou que responderam com proestro (2,5±1,1 UI/Kg).
Discussão: O hMG é capaz de induzir estros férteis em cadelas. A porcentagem de prenhez de 40% para as cadelas tratadas é semelhante ao reportado para outros regimes gonadotróficos (PMSG ou FSH apenas, ou em combinação LH ou hCG).
A dose de hMG por cão por dia foi selecionada por conveniência e não foi relacionada ao peso corporal. A dose diária resultante foi de 1,1 a 6,8 UI/Kg de peso corporal, mas não havia indicação clara de resposta dose-dependente.
Em 5 cadelas as ovulações ocorreram vários dias após o final do tratamento. Nestas cadelas a ovulação foi espontânea e ocorreu em resposta a uma carga endógena de gonadotrofina, que ocorreu como resultado da indução da fase folicular pelo hMG, e não foram respostas intensas as injeções individuais de hMG.
Três cadelas em considerável anestro prolongado responderam ao tratamento e ovularam enquanto que uma delas não ficou prenhe, isso pode indicar que induzir estro em cadelas de anestro prolongado pode ser mais fácil que em cadelas de ciclo normal.
A cadela que ficou prenhe na indução do estro aos 25 meses de idade, mas depois falhou em ciclar novamente por mais de 600 dias pode representar um caso de defeito pituitário ou hipotalâmico.